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esKAYvendo

walkthrough da minha cabeça

tl;dr: eu falo sobre a minha relação com o trabalho e os estudos, e como isso impacta para eu ver a cybersegurança com olhos muito positivos. cito breaking bad, kafka e correlaciono isso com um panorama de gênero e deficiência. ah, e também tem prints do meu obsidian.

estamos praticamente no meio do BEDA, mas eu admito: hoje eu não pensei em escrever pro blog. e tá tudo bem!

ainda não marcamos quinze dias, mas uma coisa sinto que já sei, depois de uma sequência de 12 posts: eu gosto mesmo é de falar muito, com densidade, mesmo que isso resulte em poucos dias postados durante o mês. ainda pretendo continuar com o BEDA mesmo assim? hellayeah. a gente não faz pra ganhar, mas ganhar é legal, querendo ou não. =)

o motivo da minha distração é meu hiperfoco do momento: estudar cybersegurança. no mês passado eu comecei a fazer o bandit (um desafio do OverTheWire), mas acabei dando uma pausa pois estava para entregar alguns trabalhos que precisavam 100% do meu foco. trabalhos entregues, agora eu posso voltar bem mais tranquilo.

resolvi, com isso, ser mais como a minha esposa: estudioso & organizado. se existe alguém generalista e pau pra toda obra, esse alguém é a mika, sério. eu nunca fui bom estudando e jurava que todas as pessoas que via por aí falando sobre como amaaaaaam estudar estavam de caô; eu só conseguia pensar "eita como mente!"

mas aí eu encontrei essa mulher e rapazeada, ela gosta mesmo de passar horas estudando! que loucura!!!

óbvio que isso não se aplica a estudar qualquer coisa, mas até aí me parece mais natural: se a gente tem afinidade com um assunto, estudar se torna mais de boa, mais interessante. a recompensa passa a ser o estudo em si, não necessariamente o que a gente ganha estudando, saca? aprendi essa linha de raciocínio enquanto lia how to take smart notes do sönke ahrens. foi um período que hiperfoquei em estudar sobre como estudar e foi também quando comecei a usar o obsidian.

tenho muitas anotações que vieram desse período, algumas boas, outras bem fraquinhas, e num geral não me arrependo dessa fase, por mais que ela tenha sido interrompida por um tédio mortal, que é o que geralmente mata os meus hiperfocos - provavelmente porque eu nunca saía do lugar. quer dizer, chega num ponto de um estudo desse tipo (se preparar para se preparar) em que você precisa sair da teoria e começar a caminhar pra algum lugar. senão, qual o objetivo?

pois é, eu não tinha nenhum. de início tentei fazer isso com livros que lia. cheguei a fazer várias anotações do primeiro capítulo do livro o menino criado como cão do dr. bruce d. perry e mesmo hoje gostaria de voltar, mas a parada é que tornar isso meu objetivo principal parecia irracional - afinal, eu não tenho formação em psicologia e por mais que me interesse na anatomia dos traumas, pra onde isso me levaria?

a real é que eu queria sair do meu emprego de bosta, então precisava pensar numa migração de área. mas o que fazer quando só se tem um ensino médio técnico? quem seria eu na fila do pão sem uma graduação? daí começou a crise: nas vezes em que estive na faculdade, a experiência não foi muito feliz. muita sobrecarga, muito tédio, uma sensação de que eu estava sobrando no meio daquelas pessoas.

por mais que saiba que poderia ser diferente, eu só teria certeza se entrasse (de novo) numa faculdade, e o pânico se instalava só de pensar nisso. uma nova onda de desespero me acompanhava: sem um diploma, pra onde vou crescer? não tenho QI (quem indica), não sou filho ou parente de dono de empresa, não tenho tino para criar meu próprio negócio. sou um freelancer editorial, mas depender de freelancer é instável demais.

(aqui eu te peço pra confiar em mim, pois vai parecer que estou saindo do tema, mas não estou.)

uma cena que os boy da machosfera adoram em breaking bad é uma que me marcou bastante, mas não pelos mesmos motivos que eles, eu creio. fora de contexto, a cena pode parecer "Mensagem Heterossexual Tradicional" e é até fácil achar montagens do personagem que a fala como se ele fosse um Macho Sigma Exemplo. acrescentando contexto a ela, no entanto, fica bem visível que não tem nada de exemplo a ser seguido ali. acontece o seguinte:

walter white, o protagonista, está no laboratório recém-montado por gus fringe, um personagem de dupla identidade - de dia o dono de uma franquia de frango frito, de noite, chefão da distribuição de metanfetamina.

walter vê o nível do laboratório e fica maravilhado, mas logo se recompõe e diz que não pode aceitar a proposta de gus e trabalhar fazendo metanfetanima. ele se meteu nessa por sua família, mas essas decisões o afastaram das pessoas que importam pra ele; o tornaram um estranho. o colocaram num caminho que só tende a piorar (breaking bad).

gus, que sabe o tanto de dinheiro que walter pode lhe trazer, assume uma postura gentil, compreensiva (bicho falsoooo, eu amo demais) e diz que nenhuma dessas decisões foram ruins se foram feitas pela família de walter. ele então fala o diálogo icônico:

o que um homem faz, walter? um homem provê para sua família. (...) quando você tem filhos, você sempre tem família. eles sempre serão sua prioridade, sua responsabilidade. e um homem... um homem provê. e ele faz isso mesmo quando não é apreciado ou respeitado ou amado. ele só aguenta e ele faz isso porque é um homem.

sinceramente, dá pra entender porque breaking bad é tida como "a história de um cara foda" pelos incel redpill e doidinhos que acham que "Homens de Verdade" são os pika blindada1, mas a última coisa que esse discurso de gus é, é motivacional ou foda. na verdade, o que ele está dizendo é que, por ser um homem, walter precisa tankar todas as bostas que surgirem no caminho dele, independente de isso prejudicar ou não suas relações familiares - e até se isso prejudicar o próprio walter, não importa. pois se não fizer isso, ele perde seu valor como homem.2

um homem provê, mesmo que esteja infeliz provendo; um homem se resume ao seu trabalho e um homem sem trabalho é menos do que um ser humano. basta ver a forma como pessoas em situação de rua são tratadas: ora se tornando entretenimento para pessoas com dinheiro que gostam de explorar suas situações, ora como recursos para "se sentir bem fazendo caridade", ora como corpos a serem violados e destruídos. nunca seres humanos.

em a metamorfose, vemos a mesma coisa acontecendo com gregor samsa que acorda um belo dia e percebe que não pode mais trabalhar pois virou um baita dum besourão.3 e a partir daí vemos como todo o valor que gregor possuía para sua família desaparece, pois, sem a capacidade de sustentar sua família, já que era o único provedor, de que adianta estar vivo? um corpo inapto ao trabalho é um corpo que não merece usufruir de uma existência. (qualquer semelhança com pessoas que acabam se tornando PCD e vêem sua subsistência sendo tirada de si não é mera coincidência.)

pode parecer que estou digredindo, mas a realidade é que minha relação com o trabalho é complicada: por eu ser um homem (porque meu gênero é associado com isso e me sentir invalidado fode minha cabeça), por ser autista (o que implica que é sempre mais complexo estar num ambiente onde o masking é inerente e me sobrecarregar), por eu estar inserido num contexto sócio-econômico onde a tendência é se viver de salário em salário, e de repente estar sem esse dito salário é um tanto desesperador (dispensa explicações adicionais).

dentro da minha realidade, eu preciso trabalhar, mas meu trabalho já me arrebentou e na moral? eu não quero prover só porque dizem que é meu papel ou porque afirmam que meu valor está aí. mas eu preciso trabalhar se quiser estar em equilíbrio com a minha cabeça, a minha casa e a minha vida. não porque "o trabalho liberta"4, mas porque vivemos num sistema que não me permite estar desempregado sem viver ansiedade constante, por mais que as coisas estejam financeiramente em ordem nesse momento.

não sei se algum dia vou gostar de trabalhar de novo, pois depois do burnout tudo o que se relaciona a uma existência linkedinzada me faz querer dar meia-volta e ir morar no mato. mas a gente faz o que precisa fazer, não é?

isso eu já sabia, o que eu não sabia era o que eu ia fazer. tudo parecia sem gosto, desagradável, desanimador... até eu achar a cybersegurança. daí meio que veio aquela trombeta mágica dos anjos, eu vi uma luz e pensei boy, o que é isso? um filme? se eu já me senti assim com alguma coisa, das duas uma: ou não durou muito tempo pra memória se fixar ou nunca rolou mesmo, pelo menos não com relação a algo que eu estudaria para trabalhar.

desde que comecei no bandit, eu tenho me sentido muito animado - tão animado que me deixa desconfiado. (me diga que você tem tendências pessimistas sem me dizer que você tem tendências pessimistas.) eu resolvi pesquisar mais, entender quais outras áreas e tópicos poderia estudar enquanto resolvia o bandit - alternar o tipo de estudo é uma parte importante para não enjoar do material.

e aí, quando vi, eu estava montando uma organização e resolvendo que ia começar o bandit novamente, para dessa vez ter as anotações do jeitinho certo, não as coisas cagadas que fiz em julho. e o resultado foi esse:

print do Obsidian mostrando uma nota diária. o texto nela diz

como estou em hiperfoco, por mim teria estudado bem mais, mas resolvi parar e ir fazer outra coisa. já passei por muitos e muitos hiperfocos ao longo da vida, mas antes não sabia o que eles eram e acabava me deixando levar, o que acabava com a minha saúde e prejudicava meu envolvimento com a atividade em si. hoje, sabendo do que se trata, eu sei que sim, posso aproveitar o período do hiperfoco para adiantar muita coisa, mas que se eu viver só em função dele meu corpo vai se fuder todinho.

por isso, quando terminei a última anotação sobre perceptrons, resolvi fechar o note por um tempo e fui organizar o armário - minha esposa já tinha tirado boa parte das roupas e botado-as para levar um ar, então só terminei de remover algumas caixas de pastas, arrumei algumas roupas que estavam sem cabine e pendurei-as, então limpei o armário em si. focar numa atividade que não tem nada a ver com o hiperfoco pode ser bem broxante, ainda mais uma atividade doméstica, maaaas eu fiz essa escolha de propósito: fazer uma atividade física desse tipo me ajuda a lembrar que tenho um corpo e de que não posso estar só na minha cabeça, fazendo o que quero (hiperfocar).

ficar imerso 24/7 no hiperfoco pode parecer legal, mas é parte do problema para construir uma rotina, então esse foi o jeito que encontrei de lidar com as coisas. mas não vou mentir; eu queria pra caralho continuar estudando, ainda mais porque os desafios da CyLab fazem eu me sentir esperto, por mais simples que sejam!

aqui embaixo tem um print mostrando uma das minhas anotações sobre as regras de perceptrons 2D e é basicamente aquilo que a gente viu no ensino fundamental II sobre funções num gráfico, sabe? (nesse momento todos os professores de matemática se sentem vingados pelas vezes em que alguém disse "mas onde eu vou usar isso na vida real???"):

Print de uma anotação no obsidian mostrando um print do terminal ssh com a descrição de um desafio do CyLab. A anotação em si era muito longa, então transcrevi-a abaixo dessa imagem.

Ler anotações "Esse foi razoavelmente complicado, mas só porque haviam dois pesos para testar. Basicamente o perceptron tinha dois pesos distintos: um menor para o primeiro input e um maior para o segundo. A lógica era: w¹ = 0, w² = 1 e b = -3

Assim, as coordenadas só dariam certo se x² >=3, pois assim poderia abater o viés de -3. Como o primeiro peso era zerado, mesmo que colocássemos x¹ = 10, o resultado nunca seria positivo se x² < 3."

enfim, eu vou encerrando por aqui porque esse texto já está gigante e provavelmente é o maior que já escrevi pelo blog. inicialmente eu ia só falar sobre as minhas anotações de cybersegurança, mas como sempre rola quando escrevo direto no digital, sem passar pelo papel antes, minha cabeça foi esticando a linha de pensamento e formando conexões até chegar aqui. ^^''


Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!

  1. a única grafia que eu uso quando falo da série Peaky Blinder, que é a queridinha desses boy meio totoca das ideia, que acham que homem tem que fumar, beber & ser pinguim de calculadora (frio e calculista).

  2. fora todo o peso do american dream e o do contexto racial que o subtexto de breaking bad traz, por mais que esse última não seja necessariamente desenvolvido com a potência que poderia.

  3. eu sei que ele não virou um inseto em específico, mas eu adoro essa ilustração e os memes que a galera fez com ela.

  4. slogan nazista e que alguns indivíduos por aí reproduzem sem nem saber do que se trata.

#beda #hacking #pensando-pensamentos #pessoal #segurança #sobre trabalho