esKAYvendo

sobre QUEIMADO

copiando minha amiga Yuui, que escreveu um texto sobre um dos seus contos, cá estou porque me deu vontade de falar um pouco sobre QUEIMADO, a primeira história que postei por aqui. nunca fiz isso antes, mas como se trata de um conto sobre algo muito pessoal, senti esse impulso e resolvi atendê-lo.


o autor enquanto proletário (meu background)

num geral acredito que a própria obra deva ser o material que usamos para interpretá-la, que fontes externas podem (e vão) ser enviesadas. um livro como eu estou vivo e vocês estão mortos: a vida de philip dick, de emmanuel carrère, pode ser muito interessante, mas parte da biografia para fazer uma interpretação da obra que extrapola a obra. o papel do biógrafo, eu creio, não é criar essas especulações, por mais que elas pareçam fazer sentido. no entanto, uma coisa é certa: saber mais sobre a vida de philip dick me ajuda a entender certos padrões que vejo em suas histórias, a entender os temas que ele aborda e a frequência com que os faz. isso não necessariamente explica porque ele escreveu o que escreveu, mas nos dá pistas. entender o sujeito, eu penso, é parte do que podemos usar para entender sua arte.

não sou biógrafo, nem pretendo ser, mas sou o único que tem acesso à minha íntegra e pensamentos, então vou dar um breve background sobre como cheguei até aqui: fiquei mais de ano afastado da empresa em que trabalhava, depois de viver várias situações desgastantes e que levaram minha psiquiatra ao diagnóstico de burnout. nos piores dias, antes de eu começar a colocar os atestados, eu só tinha duas ações: dormir e acordar no horário do meu serviço para trabalhar. "o home office tem muitas vantagens", eles disseram, e pra mim, teve mesmo: eu podia só ir da cadeira pra cama e depois da cama pra cadeira, um dia após o outro.

a louça se acumulava na cozinha, eu não conseguia tomar banho sozinho. brigava muito com minha esposa, estava sempre preocupado com dinheiro ainda que, ironia, eu tenha ido atrás desse emprego justamente porque precisávamos de dinheiro. quando me afastei, minha psiquiatra pediu que gerassem uma CAT na empresa, alegando afastamento por doença gerada pelo trabalho. a médica do trabalho disse que não poderia fornecer uma CAT pois eu já tomava antidepressivo antes de entrar na empresa, logo, o problema era anterior a eu trabalhar ali. eu já não esperava que a empresa admitisse meu burnout como doença do trabalho, mas ouvir aquela desculpinha de merda me deixou tão irritado que por um momento eu vi vermelho. se eu já detestava a classe médico antes, esse momento e o do meu retorno - quando outra médica tentou me coagir a falar que eu estava bem para retornar, mesmo que eu dissesse que não - me fez odiá-la ainda mais.

várias das situações do conto foram experiências tiradas da minha própria vivência - inclusive a de alguém morrendo em serviço. minha mulher é psicóloga e estudou muito a nr-1, uma norma trabalhista que foi introduzida esse ano, então não canso de saber que meu caso é o mesmo de tantas outras pessoas, sem tirar nem pôr. não tem nada de especial ou diferente no que relato, das sonseiras de hierarquias que não entendem do trabalho ao ambiente corporativo alienado (& alienante).

pouco antes de pedir as contas desse lugar infernal, comecei a assistir ruptura e posso dizer, sem exagero, que saí de um lugar bem parecido com a lumon - a única distinção sendo que não há nada de tecnologia avançada para manter os funcionários atados a esse sistema. o que mantém a galera saindo e voltando é a necessidade de pagar contas e alimentar sua família.

pedir demissão foi algo que relutei muito tempo em fazer. não queria perder meus direitos, perder um seguro-desemprego que faria diferença pra cacete. minha família discordava, dizia que não valia a pena eu acabar comigo mesmo dessa forma, ainda mais quando soubemos que, ao retornar, eu iria para o presencial. trabalhando do final da tarde até quase meia-noite, chegando em casa meia-noite e meia. eu queria tentar, disse que precisava fazer esse esforço, descobrir se poderia fazer algo diferente. hoje em dia eu entendo que estava num estado bizarro de barganha: não um luto pela ideia de sair da empresa, mas sim por ter de aceitar que não, eu nunca mais veria as relações de trabalho da mesma forma depois daquela experiência.

aquilo me quebrou com tanta força que hoje eu percebo que me tornei o que a semmy relata aqui quando escreve sobre as máscaras, sobre saber ser falsa com quem não te importa. por mais estúpido que pareça, eu sempre fui sincero até demais no trabalho. mentir é uma atividade que faço com certa dificuldade, pois meu primeiro impulso é ser genuíno, espontâneo. ao longo dos trabalhos que tive, todos envolvendo atendimento ao público, de uma forma ou de outra, eu era gentil, cordial e objetivo, mas nunca mentia pra agradar ninguém. se não desse pra fazer o trabalho eu falava "não dá". se não gostava de algo, dizia que não gostava. privilégio branco funcionando, possivelmente, mas foi como foi, independente da razão. com colegas de trabalho, eu só não costumava falar sobre mim - e a maioria das pessoas não pergunta pois esse é o padrão. as pessoas querem saber de si e não dos outros, e assim a gente navega nessa piscina cheia de bosta que a galera quer nos convencer que é de água cristalina.

"o trabalho é importante, sim, mas se eu errar um avião não vai cair do céu e ninguém vai morrer." essa foi uma frase que ouvi no meu primeiro emprego e que nunca esqueci, especialmente porque eu trabalhava como se sim, um avião fosse cair ou alguém fosse morrer. cada erro me deixava destruído, cada pessoa fazendo corpo mole me despertava fúria e desprezo. nunca fui de puxar o saco de ninguém, mas o meu trabalho, a minha função? isso era sagrado, quase como uma divindade a quem eu prestasse homenagem num altar que eu mesmo construí. hoje em dia eu olho pro meu eu do passado e penso "garoto, como você é trouxa."

mas antes tarde do que mais tarde, não é?


a voz do autor é a voz dos compradores (meu estilo)

desde que publiquei pela primeira vez uma história na amazon, meu estilo de escrita se modificou bastante. estar o tempo todo trabalhando com outros autores leva a isso mesmo, verdade, mas mais do que meus trabalhos de Leitura Crítica, edição e revisão, essa mudança acabou sendo influenciada por uma necessidade de me adaptar ao meu meio. na amazon, aquilo que faz mais sucesso é, querendo ou não, um tipo específico de prosa: frases mais simples de se ler (em tamanho e em tipo de vocabulário também), ideias mais diretas, narrativas mais focadas em ações e descrições etc.

quando digo isso, não é para desincentivar ninguém no âmbito comercial a escrever de X ou Y maneira, mas sim apontar um fato que observei e que não é nenhuma exclusividade do nosso tempo; tem um motivo para as obras pulp terem se tornado tão famosas. querendo ou não, um material com menos experimentação, baseado em estruturas mais conhecidas, alcança mais público. é mais "seguro" vender aquilo que boa parte das pessoas já está acostumada a ler. isso impede autorias de escreverem com flexibilidade e autenticidade, explorando novas formas e propostas de histórias? claro que não! mas eu sou um reles mortal, então me "vendi", aceitei escrever de um jeito que não exatamente era o meu favorito.

ter escrito QUEIMADO recentemente foi uma sensação muito boa por ser tão diferente do que eu estava acostumado a produzir nos últimos anos. antes de entrar na amazon, meu estilo era mais próximo dessa história: narrativas mais "fragmentadas", com metáforas mais surrealistas (e outras nem tanto), um tom seco e, ao mesmo tempo, reflexivo. a infelicidade também é uma característica que eu aprendi a diluir no meu estilo de texto atual, porque algumas tantas vezes já vi leitores comentando que achavam insuportáveis personagens deprimidos ou com qualquer personalidade que seja mais "pra baixo". (sim, eu sou um putinho sem personalidade e influenciável, me processe! estou, inclusive, com uma história parada há anos porque a protagonista é depressiva, revoltada e meio arrombada, e tenho medo de ela ser odiada. sério, que palhaço, pqp)

não espero que leiam a minha perspectiva como uma verdade absoluta e imutável, mas às vezes me sinto meio bosta no meio do romance porque parece que todo mundo precisa ser feliz: eu e meus personagens. todo mundo precisa estar sempre leve ou, se tem um drama, então precisa ser um drama "bonito" de ser visto. o mocinho pode ser sad boy, deprê e tudo mais, porém de um jeito que não o torne um lixo fisicamente ou miserável demais - o pessoal quer um depressão instagramável, que caiba num quote para post de divulgação. a mocinha só pode ser depressiva se isso não a tornar um saco de lamentações & se ela fizer tudo o que o cara quiser, no tempo dele - caso contrário ela vira uma enrolona insuportável. ter raiva ou revolta? isso é reservado pros caras; se for uma mulher sendo um "nojo" de um jeito pouco girlboss (na régua da galera que lê), ela vira uma vagabunda ou escrota.

talvez parte da minha leitura acima esteja super errada e eu esteja me focando em comentários de leitores que são a exceção e não a regra, mas às vezes isso parece uma verdade quando vou vendo os lançamentos aqui e ali e nenhum parece descrever personagens que conversem com esses sentimentos mais densos que quero ver. mocinhas que no máximo são "girlboss" ou "female rage" (um termo que, por sinal, foi super distorcido), mas que no final ainda são super femininas e heteronormativas, metidas num relacionamento com caras "energia masculina" e igualmente heteronormativos.

se eu fosse para os livros sáficos ou duáricos eu me depararia com material diferente, talvez, mas insisto nessa de querer me alimentar de histórias entre um homem e uma mulher que não sejam o ápice da normatividade, que construam alguma coisa interessante e que não gire em torno de machos alfas, ciúmes ou dominação masculina cheia de grana.

enfim, acho que me desviei do tema, perdão pelo vacilo. voltando ao ponto principal: o lance é que eu parei de escrever como eu gostava de escrever. estranho, deslocado, cheio de acidez. talvez eu escreva muito melhor hoje, no "estilo amazon", é verdade - eu sinto que evoluí bastante ao longo do tempo, por mais que ainda não tenha lançado mais nada depois da última antologia de que participei -, porém onde fica a expressão artística? nem sempre escrever do jeito que te satisfaz consiste em escrever bem. nem tudo o que escrevo precisa ser pensado para vender. (agora, só preciso repetir isso mais mil vezes, até se firmar como uma tatuagem no meu cérebro.)

QUEIMADO veio até mim enquanto eu fazia minhas páginas matinais, uma rotina que tenho sustentado com minha esposa desde fevereiro desse ano. eu já vinha escrevendo sobre meu burnout no caderno fazia meses, mas sentia que faltava algo pra botar pra fora. a ficção meio que foi o meu suporte por décadas, o local onde eu vomitava todas as minhas dores, mas, novamente, ao adotar o "padrão amazon", eu fui me distanciando dessa escrita intimista, pessoal. resolvi que ia tentar, que valia o esforço. linha a linha, fui construindo o conto que hoje se encontra nesse blog e que teve alterado apenas uma ou outra palavra no seu processo de digitalização.

esse conto não é a minha melhor obra e com certeza tem aspectos a serem melhorados se eu fosse olhar com uma perspectiva mais analítica, se fosse pensar em como "vender" isso aqui, mas não quero vender essa experiência. tudo o que eu queria era botá-la no mundo e ver qual resultado causaria. fiquei contente com as respostas das pessoas ainda que, ao mesmo tempo, um tanto cabisbaixo: pois se reconheceram a minha dor é porque também tiveram sua vida marcada por algo semelhante. é bom saber que não estou sozinho, mas uma bosta ver que tantos outros sofrem como eu.

o fim (por agora)

hoje estou procurando emprego em outros cantos ao mesmo tempo em que tenho meus próprios trabalhos freelancers, que não param de crescer. tenho ganhado clientes novos o tempo todo, o que me deixa muito contente, ainda que não dê pra viver só com a renda dos meus serviços. por outro lado, vivo com essa sombra me rondando, essa necessidade de me vigiar para não cair nos mesmos comportamentos que me levaram ao burnout antes pois, por mais que pareça sem sentido, estando sozinho eu ainda me pego reproduzindo comportamentos que tinha no clt.

sem dúvida essa não vai ser a última vez que vou fazer um texto sobre burnout ou radicalização no trabalho, até porque estou preparando alguns tantos textos sobre ruptura (a bicha é cheia de material, que delícia de série, namoral!), mas pelo menos sinto que, nesse momento, estou bem mais feliz e inteiro do que antes.

senti vontade de enfiar aqui uma metáfora sobre queimado e fênix, mas achei melhor não. vocês já me acham brega o suficiente sem isso, tenho certeza!

anyway, obrigado por terem lido até aqui! =)


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#beda #literatura #meta-análise?