páginas matinais: uma atualização
Em fevereiro desse ano comecei a fazer o exercício de escrita livre chamado páginas matinais. Acompanhado da minha esposa, o momento em que paramos para escrever — geralmente após o café da manhã — se tornou uma parte muito divertida da nossa rotina, algo que atualmente não me imagino vivendo sem. Hoje vou falar como tem sido essa experiência nos últimos meses.
Descobri que já ultrapassei 200 páginas escritas, o que me surpreendeu muito. Já tive outros cadernos pessoais antes, mas estes seriam mais próximos do que hoje em dia o pessoal chama de commonplace book, o famoso “caderno de tudo”. Não havia uma meta do que escrever, então por vezes podia escrever 10 páginas num dia e passar dois meses sem tocar nele, por exemplo. De cara, o que posso dizer então sobre as páginas matinais é que elas me fazem perceber como indo aos pouquinhos — mesmo que eu não escreva todo dia, e nem sempre faça as 3 páginas sugeridas — eu posso ir bem longe. Afinal de contas, 200 páginas manuscritas não é qualquer coisa!
Semana passada terminei um caderno de 10 matérias (ocupado por outras coisas, tipo exercícios de matemática, anotações de estudo de línguas etc), e comecei outro. No novo caderno resolvi manter duas contagens de páginas: a individual dele e aquela que é uma continuação do primeiro caderno. Dessa forma, posso ter noção do quanto utilizei pra cada caderno em si, mas também manter o registro de por quanto tempo o hábito das MP se estende na minha vida.
Sobre o conteúdo: apesar de não tratar as páginas como um diário, pois essa nunca foi a minha intenção, é um tanto inevitável escrever sobre coisas que acontecem no dia a dia, saídas de casa, compromissos de trabalho, problemas, dissabores. Geralmente, no entanto, essas coisas não são o suficiente para preencher 3 páginas, então o que faço depois de anotar as ocorrências cotidianas é tentar soltar a imaginação. Observo quais pensamentos passam com insistência na minha cabeça, o que está ocupando um espaço significativo no meu HD mental e coloco tudo em tópicos, alguns mais desenvolvidos do que outros.
Escrevi uma quantidade boa de futuros textos para esse blog, inclusive, agora só me falta a coragem para passá-los para o digital e refinar o material. Eu sei: eu coloco na home daqui que tudo não passa de um experimento, deixo claro na área de dúvidas que estou tentando não me meter em mais trabalho do que já tenho feito, mas acho que querer fazer as coisas com cuidado e atenção não necessariamente precisa vir de um lugar de autocobrança desgastante. Às vezes, você quer fazer algo da melhor forma possível porque gosta de todo o processo e quer ver um material final que corresponda à sua alegria de ter passado tempo com aquele projeto — um sentimento que tem feito muita falta na minha vida.
Faz um bom tempo que não tenho conseguido escrever ficção da forma que gostaria; começo alguns capítulos de múltiplas histórias ou faço anotações de ideias que tive, mas nunca engato da mesma forma que fazia 5 ou 6 anos atrás. Isso acaba sendo um pouco tabu de admitir no espaço online pois é uma espécie de “consenso” no meio literário de que se você fala algo “não profissional” sobre sua escrita — autocríticas, comentários depreciativos, dificuldades pessoais —, então você não é um escritor de que os leitores vão querer proximidade. Você não é confiável como produtor de conteúdo. Sua instabilidade não é comercial.
Quando existe uma cobrança tão sólida e insistente para que você sempre esteja lançando, publicando o mais rápido possível (e nesse caso a Amazon transformou o “publicar a cada 1 ou 2 anos um romance” em algo ridículo; se você é indie, lance a cada 3 meses e observe as pessoas reclamando ainda assim), ficar tantos anos como eu sem lançar nada de novo é o mesmo que assinar um atestado de fracasso.
Como assim eu ainda não lancei a continuação da minha série? Enquanto isso autoria X ou Y já lançou uns 9 livros, 8 contos, 2 boxes e ainda está produzindo material extra num Catarse. Por que eu não consigo suprir as expectativas dos outros?
Os leitores não querem esperar, a fidelidade dura apenas enquanto o hype está quente. Assim que a próxima coisa minha sair, é bem provável que seja um flop imenso. Por que continuar então? Você nunca vai ganhar dinheiro com isso, não tem habilidade pra cumprir os requisitos que o mercado atual pede.
Esses pensamentos vêm e vão pela minha cabeça. Às vezes, não me incomodam, mas em muitos momentos se estabelecem como uma coceira ardida num ponto das costas que não consigo alcançar.
Pode parecer meio aleatório falar disso nesse post sobre as páginas matinais, mas é que essa tem sido uma questão persistente pra mim, então acaba que as MP têm me ajudado bastante. A primeira razão é porque tenho escrito sobre isso, o que me fornece espaço e tempo para refletir a respeito do problema e encontrar formas de lidar com ele. A segunda, que vai parecer até meio boba, é que a vantagem de escrever as MP é perceber que sim, eu ainda consigo escrever. Não importa que não sejam histórias. O que importa é que algo ainda consegue nascer de mim, minhas palavras ainda podem ser veículos para meus pensamentos. Eu não desaprendi o ofício, só estou travado, por alguma razão que ainda preciso desenrolar.
É agoniante não saber porque não se consegue fazer algo que foi por mais de 20 anos o amor da minha vida, minha menina dos olhos. Não é apenas um hobby, mas aquilo que eu julguei, por muito tempo, ser a razão do meu viver; aquilo que, por mais medíocre que eu fosse/seja, ainda é aquilo que eu faço melhor (como diria Kurt Cobain, “I’m worse at what I do best / and for this gift I feel blessed”). Porém, se ainda há esperança, se as palavras ainda me chegam, as sentenças são compostas, as reflexões nunca minguam, então o desespero, por mais justificado que seja, não é o destino final. A seca é apenas parte do caminho, mas assim como qualquer coisa na vida, é passageira.
Enquanto o momento de retornar não chega, vou passando o tempo com minhas 3 páginas diárias. Com elas, o tempo se torna não apenas tolerável, mas apreciável e isso é tudo o que me importa.
Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!