esKAYvendo

morning pages (ou de qualquer horário)

Índice (TOC)

Introduzindo

Meu primeiro experimento desse ano com minha esposa - fora os joguinhos que gostamos de descobrir e jogar juntos - foi começar a escrever as famosas morning pages. É um exercício razoavelmente conhecido se você faz parte do grupinho animado dos CriativosTM, tornado popular pelo livro the artist's way (1992) de Julia Cameron.

Admito que não consegui terminar de ler o livro de Cameron (cheguei a uns 30 ou 40%, não lembro), achei muito tilelê das ideias, muito "gente branca se acha tãããão especialzinha". Esse texto da Janaína Esmeraldo explica parte do meu incômodo com o livro de forma mais organizada e traz uma tirinha que ajuda a substituir a leitura, caso você se interesse por saber do que se trata mesmo assim.

É um livro ruim? Não acho, mas definitivamente não combina com a minha personalidade nesse momento, só me faz revirar os olhos. Ainda no texto da Janaína, por sinal, ela recomenda outras obras sobre arte e criatividade que me interessaram bem mais e que pretendo ler no futuro!

Experimentando

As morning pages são um negocinho curioso, divertido. Por vezes cansativo também, admito, mas que vale bastante a pena, pelo menos pra mim.

Como funciona

Em que consiste esse exercício? Basicamente você separa 3 páginas (3 páginas mesmo, não 3 folhas! 3 folhas = 6 páginas, frente e verso) de tamanho A4 e preenche elas com aquilo que estiver na sua cabeça. Reclamações, listas, letras de música... Qualquer coisa serve. Se você não sabe o que escrever, Cameron recomenda que você escreva "não sei o que escrever" até preencher o espaço de 3 páginas. Exagerado, talvez, mas já fiz isso algumas vezes e percebi que quando começo, logo encontro algo para falar que seja mais interessante do que só ficar dando uma de papagaio de pirata com a mesma frase.

O objetivo é que você coloque pra fora tudo aquilo que está rodando sem parar pela sua cabeça, dessa forma você pode deixar suas questões ali, no papel, e então se preocupar apenas em ser criativo. Por isso mesmo Cameron recomendaria que isso fosse feito logo pela manhã, antes de "as defesas do Ego subirem" e que ninguém as leia, nem você mesmo.

Como tem funcionado pra mim

Além de ignorar qualquer papo de psicanalista que me aparece, minha rotina e relógio biológico não me permitem acordar às 5h da manhã e em jejum correr para fazer essas páginas, o que significa que raramente as completo antes das 8h da manhã - meu normal é escrever e finalizá-las às 11h, meio-dia, fazendo minha esposa chamá-las de "páginas vespertinas". Isso não tem sido um problema, até onde pude notar, pois cumpre o propósito de despejar os pensamentos nos papéis e ir me preocupar com outras coisas.

Algumas das páginas me fazem sentir bem o suficiente para compartilhá-las com minha esposa, então eu as ofereço para ela ler e ela faz o mesmo comigo. Isso não quer dizer que estou sempre compartilhando as páginas, algumas acho desnecessárias e/ou quero realmente manter a linha de pensamento de "ok, isso aqui é de mim para mim". Sobre a parte de reler, realmente não é algo que eu faça e até mais do que isso eu esqueço sobre o que exatamente escrevi. Assim que tiro a caneta do papel, todos os assuntos somem e eu até faço uma vaga ideia do que mencionei, mas não em detalhes. Num geral, acho isso bem positivo, já que a "super memória" é parte do que me sobrecarregada.

Desde que iniciamos esse projeto, dia 06 de fevereiro, tenho escrito todos os dias, exceto por um único dia em que realmente não tive cabeça para fazer nada pois tive de comparecer a um compromisso bem longe de casa, com muita interação social. Isso quer dizer que, contando com hoje, foram 20 dias de escrita sobre o que se passa na minha cabeça. Para quem nunca teve a menor energia para ter um diário, que começou a manter uns tantos e sempre acabava parando, ter 20 dias de escrita do que me habita é um feito e tanto!

Um dos meus receios com esse exercício era ser muito resmungão, chato, cheio de autopiedade e sem autoestima - sempre foi o meu natural, infelizmente -, e tal comportamento me desgasta. Tipo, ok, eu sei que estou sofrendo, mas será que preciso ficar falando disso o tempo todo?! Falar disso está ajudando alguma coisa a mudar? Não parecia, então comecei a pensar numa abordagem diferente. Conscientemente, decidi que as páginas iam ser sobre coisas que eu gosto, me divertem, me deixam curioso.

Ali eu tenho falado sobre sonhos, por mais bobos e inalcançáveis que pareçam; sobre como amo as pessoas que são importantes pra mim, como me sinto feliz por tanta coisa ter mudado na minha vida nos últimos 6 anos. Com risco de soar como um coach da positividade tóxica, mas eu tenho sido mais "gratiluz à vida", o que escapa do meu personagem que só veste preto, tá de cara amarrada e que faz os outros jurarem que é um metaleiro revoltado. (Revoltado, sim, mas sou mais de música pop, rap, R&B, jazz...)

O que tem de especial nas morning pages?

Afinal, qual a diferença das páginas matinais para um diário? Essa pergunta veio da minha esposa na primeira semana em que escrevíamos, pois para ela as páginas eram como o processo de anotar coisas no bujo (o famoso bullet journal), com a diferença de que ela não tinha uma seção para consultar compromissos ou agenda, por exemplo. Expliquei que da minha perspectiva, pela forma como o exercício foi formulado, eu não as considerava um diário porque eu não precisava me focar em descrever o que estava acontecendo no dia/semana. Eu podia simplesmente falar o que me desse na telha, sem um compromisso com registrar, necessariamente, os fatos da minha vida.

Ter uma mente literal pode ser muito cansativo justamente por isso: se você me diz que um diário deve ser sobre a minha vida, eu interpreto que preciso contar sobre cada detalhe e virada que acontecer, o que pode ser complicado de manter porque a vida nunca para, mesmo que às vezes a gente sinta que não está saindo do lugar.

Entender que as páginas matinais podem ser sobre qualquer coisa mesmo tira esse peso de mim, então um dia de escrita é totalmente diferente do outro. Não preciso escrever bem e bonito, não preciso me preocupar com gramática, ortografia e se estou sendo repetitivo ou não, pois ninguém vai ler aquele texto além de mim (em tese), não preciso postar meus pensamentos, na verdade nem sequer releio o que escrevo!

Resultados

Meu sonho de princeso quase sempre envolve metas impossíveis de se bater e que muitas vezes dizem mais sobre minhas ansiedades do que sobre aquilo que eu gosto.

Exemplo simples, mas toda vez que eu penso "deveria ler mais, preciso ler X obras em tanto tempo", quase sempre um dos pensamentos abaixo é o que está realmente escondido por trás da "meta":

Mas aí, fora do loop, penso: será que estou realmente lendo com consciência ou só atulhando coisas numa TBR movida pela FOMO e hype? Será que realmente quero ler esse livro ou se eu só pesquisasse a respeito dele minha curiosidade seria sanada?

Não é minha intenção discutir esses pensamentos aqui, já que eles por si só dariam um textão, mas acho que ficou mais visível como estou executando o trabalho de enxergar o pensamento por trás do pensamento. Isso ajuda bastante a não ficar fixo e gastar processamento mental com uma ideia que talvez nem seja tão importante assim naquele momento. E aí sim, eu ganho mais tempo para ser criativo (ou pelo menos iniciar novos projetos!)

Concluindo

As morning pages consomem tempo, sim, mas até agora tenho visto mais bônus do que ônus na sua prática. Não é a intenção que elas substituam alguma coisa ou que "evoluam" para outra - elas são um projeto por si só e isso já me deixa bastante satisfeito.

Pretendo continuar escrevendo-as em março também, sem me julgar quando não conseguir bater as 3 páginas ou quando só conseguir escrevê-las no horário em que tiver energia (seja de manhã, seja de tarde ou noite). A intenção é colocar os pensamentos no papel e com isso me sentir mais organizado, menos sobrecarregado por essa cabecinha que está sempre falando e ruminando, sem parar.

Além disso, graças às páginas matinais, tenho iniciado outros projetos, como exercícios de aquecimento que elaboro (alguns com ajuda da minha esposa) para começar o dia de escrita e criar mais resistência/melhorar meu tempo wpm (acrônimo de words per minute, palavras escritas por minuto).

O projeto de textos de aquecimento é mais recente, ainda não completou 1 semana de vida, então vou esperar "colher" mais textos para comentar como tem sido os resultados, daí volto aqui para compartilhar! =)

#criatividade #escrita #morning pages #páginas matinais