hiperfocos all the time, all at once
observação 1: esse é um texto que traz informações sobre vivências autistas, mas também é (especialmente) sobre a minha experiência com a minha neurodivergência (autismo e AH/SD). o que eu NÃO estou querendo dizer com esse texto:
- todo autista experiencia o hiperfoco exatamente desse jeito;
- apenas autistas e/ou pessoas AH/SD tem essa experiência
- que minha experiência é de alguma forma parâmetro para qualquer outra pessoa autista que você conheça.
observação 2: tentei remover o máximo possível o número de repetições da palavra "hiperfoco" nesse texto, mas ela ainda aparece pra cacete. peço desculpas por isso mas se servir de algum consolo você pode tomar um shot de água cada vez que se deparar com ela e isso vai te tornar uma pessoa bem hidratada.
enfim, segue o texto.
uma das palavras preferidas do momento é essa: hiperfoco. os internautas usam como se o hiperfoco pudesse acontecer com qualquer pessoa & significasse algo como "gosto demais desse trem aqui". infelizmente não é bem assim que funciona e resolvi falar sobre isso hoje porque estou sendo consumindo pela minha própria cabeça, nível passar entre 6 e 8h lendo sobre ele e depois me levantar com os braços tremendo por uma crise de hipoglicemia.
yay?!
acho que desde criança eu experiencio hiperfocos. geralmente eles giram em torno de atividades e histórias (ficção), mas também já tive alguns por pessoas - um relato razoavelmente comum na comunidade autista.
os hiperfocos podem se alterar ao longo do tempo e variar em intensidade. tem aqueles que serão passageiros (coisa de dias ou semanas, por exemplo) e aqueles que duram anos. eu diria que um dos meus de mais longa duração é a leitura, indo da infância (entre 5 e 6 anos) até agora, o que dá quase 1/4 de século. existem momentos em que estou mais enroscado nele - o tempo inteiro pesquisando livros, avaliando sinopses, estudando a vida de autores que até 1 dia atrás eu nunca tinha ouvido falar, criando listas e mais listas de materiais para ler. além de, obviamente, passar horas do dia apenas lendo. em outros momentos, ele fica "dormente", se tornando menos agressivo. eu ainda amo livros e adoro ler, mas passo a agir de forma menos intensa em relação a isso.
costumam ter dois momentos em específico em que meu hiperfoco de leitura fica em stand-by:
- períodos depressivos, que eram muito mais comuns antes de eu tomar minha medicação/ajustá-la;
- quando outro hiperfoco toma conta.
uma das características usadas para definir um quadro de autismo é a "persistência de interesses específicos por parte da pessoa, sendo estes geralmente poucos, porém intensos". o que isso quer dizer, na prática? em tese, autistas teriam a base de funcionamento a partir de algo que chamam de monotropismo. isso quer dizer que tendemos a focar toda a nossa energia em uma coisa só, ao passo que para pessoas alísticas1 essa energia poderia se distribuir para vários pontos.
pense numa câmera e na função de zoom: para as pessoas alísticas, o zoom é menor, dando mais espaço para visualizar grandes partes do cenário/enquadramento. o lado positivo é que assim se pode ver bastante coisa, o ruim é que essas coisas não necessariamente serão tão detalhadas. para autistas, o zoom está sempre torando no grau, o que torna super cheio de detalhes aquilo que está na linha da câmera. porém, enxergar o entorno e o resto das coisas está fora de cogitação.
o monotropismo é aquilo que justifica algumas tantas ocorrências comuns na vivência autista:
- a (por vezes completa) falta de interesse por assuntos ou conversas que não girem em torno dos nossos hiperfocos ou interesses especiais
- a dificuldade em mudanças de rotina
- o estado de total desligamento do nosso entorno quando estamos fazendo uma atividade que captura nossa atenção.
o monotropismo é também a razão pela qual pessoas autistas podem parecer interessadas em pouquíssimas coisas (em comparação com alguém neurotípico) e viver em função delas - já que temos um foco tão grande e intenso naquela coisa que é o nosso interesse especial, dificilmente sobre energia ou tempo que possa ser distribuído, digamos assim, para outras coisas (o que levaria também à descrição que fala que temos "interesses restritos"). isso pode ou não ser um problema para a pessoa autista, dependendo do seu cotidiano.
bem antes de pesquisar sobre monotropismo, eu só tinha acesso à descrição básica das características do TEA, que falava sobre os tais interesses restritos e não achava que essa parte se aplicava pra mim. eu tive o diagnóstico poucos anos atrás, mas desconfiava desde antes. o que me deixava na dúvida, no entanto, era essa "falha" (da minha parte) no que seria um diagnóstico clássico: eu não tinha poucos interesses, na verdade, eu gostava de áreas completamente não correlatas e num número significativo. carpintaria, escrita, costura, mecânica... todas essas coisas em algum momento se tornaram algo que eu tentei, estudei ou tive contato. se eu fosse autista mesmo, como isso era possível?
após o resultado da avaliação neuropsicológica, fui pesquisar mais sobre AH/SD, diagnóstico totalmente inesperado pra mim e do qual sabia muito pouco. o básico: essa é a sigla para "altas habilidades/superdotação". algumas pessoas dizem apenas "altas habilidades", talvez porque a segunda parte sobre superdotação já tenha criado uma imagem bem distante de uma deficiência.2
minha quota de estudos sobre as altas habilidades está devendo em muito o ideal, mas do pouco que sei me fez entender que, em parte, por ser também AH/SD isso altera um pouco a minha forma de experienciar o autismo:
- eu consigo ter um leque um pouco mais amplo de interesses, não sendo tão restritivo;
- minha capacidade de adaptação é um pouco mais flexível, levando a menos problemas com mudanças na rotina.
por outro lado, com um leque mais amplo de opções, quer dizer que estou constantemente "queimando" minha preciosa energia com múltiplas coisas, nunca conseguindo me dedicar totalmente a algo para me tornar um especialista, sendo "relegado" ao estado de generalista.
acho que com todo esse preâmbulo deu pra entender mais ou menos o que quero dizer, certo? não sou só autista ou só alguém com altas habilidades, mas alguém que combina as duas neurodivergências superpostas e acaba tendo experiências com diferentes graus de intensidade justamente por causa disso.
voltando aos hiperfocos. conforme falei antes, existem diferentes níveis de intensidade para eles. algumas coisas vão ser "apenas" interesses especiais, mas que não chegam a virar a chave do hiperfoco, enquanto outras se tornam meio que o centro da existência da pessoa autista. para pessoas neurotípicas ou não-autistas, isso pode parecer um "sonho": então você consegue se concentrar pra caralho num assunto e ficar imerso nele por horas? caramba, você deve ser ótimo estudando!
associar hiperfocos com atividades intelectuais é um erro comum, provavelmente pela imagem que a ficção constrói de personagens autistas "gênios", tipo aqueles vistos em good doctor ou the big bang theory, mas eles não necessariamente vão acontecer com uma disciplina ou área de estudo. você pode só estar hiperfocado em rever um filme 500x ou na vida de uma celebridade totalmente aleatória, por exemplo.
num geral, essa é uma faca de dois gumes: se por um lado quando experienciado no seu "ápice" ele pode deixar a pessoa vivendo só em função dele, por outro, quando não há absolutamente nenhum "ativo" não é incomum ver o relato de pessoas autistas infelizes com a vida. é uma corda bamba complicada de se manter equilibrada: você existe melhor quando tem um hiperfoco, se sentindo mais animado e energizado, mas corre o risco de cair no buraco de coelho se a intensidade for muito alta e não conseguir voltar pra sua vida cotidiana.
já tentei por muito tempo escapar dos meus, tanto por me incomodar com a instabilidade que eles traziam pra minha vida (é, talvez eu não seja tããão menos monotrópico assim...) quanto por não gostar dessa sensação de ser consumido por algo e perder o controle - algo que só me ocorria depois que a tsunami do hiperfoco passava e eu tinha de lidar com os destroços e desgaste da queima rápida de energia, além de dar conta de arrumar todo o resto que ficou parado por eu não botar pra andar nada que não tivesse a ver com ele.
acredito que hoje estou mais ou menos por aí. esse mês o desafio do BEDA está ativo e eu me desafiei a escrever e postar algo todos os dias, mas nos últimos três dias simplesmente não consegui. o blog é, de certa forma, um dos meus interesses especiais, por muitas razões. mas aí me deparei com algo mais agressivo e que me atropelou sem aviso: a minha pira com cybersegurança. se você leu meus últimos posts por aqui, deve ter me visto falando a respeito dos meus estudos e de como estou focado neles. oh well... deu meio ruim. kkkkkkkkk
resolvi aproveitar esse momento de hiperfoco para me dedicar aos estudos, mas nesse final de semana vi bastante do efeito colateral negativo: ao estudar por tantas horas, me mantendo parado, com o único movimento sendo dos meus dedos escrevendo e do pulso mexendo no touchpad, eu fiquei um caco. a casa ficou uma bagunça, o chão parecendo saído de um banheiro de rodoviária, a pilha de louça crescendo e crescendo...
basicamente, eu sou o administrador da família nesse aspecto: cuido da limpeza e organização de praticamente tudo, e quando não sou eu executando sou eu distribuindo as tarefas para que possam ser realizadas entre minha esposa & meu companheiro. se eu estou ausente... deu pra entender, né?
eu falei em outra postagem que estava conseguindo me cuidar melhor e me controlando não ser consumido pelo hiperfoco, mas acho que comemorei cedo demais. já tem uns dias que o lado feio dessa condição está atacado pra caralho e os efeitos colaterais são variados:
- insônia, pois fico agitado demais pensando em mil e uma questões (o que eu eu ainda não sei? como vou aprender? será que estou buscando as fontes corretas de informação?)
- irritação, em especial porque a vida não gira em torno do que eu quero fazer, mas também porque ler demais sobre o mesmo assunto eventualmente te deixa enjoado e estafado
- estresse, porque não consigo me controlar e detesto perder o controle dos meus sentimentos e impulsos
- dores no corpo, por ficar tanto tempo parado
- crises de hipoglicemia por não conseguir ir me alimentar sozinho, tendo de esperar alguém me ajudar nesse aspecto
- tontura e visão turva por passar tanto tempo na frente da tela do notebook
- tristeza por nem sequer estar conseguindo parar pra conversar ou passar lá muito tempo de qualidade com a minha família.
nesses momentos, é como se eu fosse um bonequeinho do the sims: assim que a minha tarefa do momento é concluída, eu me vejo indo pra próxima, sem pensar muito a respeito. comemos nossa refeição, mas agora que acabou eu já quero voltar pro notebook. estávamos vendo um filme em família? legal, mas assim que termina vou voltar pros estudos. sinto como se eu nem sequer estivesse ali, no momento, pois tudo o que quero é que ele termine e isso não é legal, sabe?
ontem pela manhã eu consegui lavar o chão da sala e da cozinha, que eram a pior parte da casa (antes de sentar no notebook) e de noite fiz empadas para lancharmos (depois de sentar no notebook), mas tudo porque me programei para rodear o meu hiperfoco. a lógica é nunca desafiar o controle do hiperfoco quando minha cabeça entra nesse estado mental, pois o desconforto tende a ser tão grande que eu não quero acabar tendo um meltdown3.
enfim, essa postagem foi fruto de dois dias de trabalho para poder acontecer e achei que era bom me esforçar para concluí-la, não pelo BEDA em si, mas porque ela também acaba servindo de mensagem para a minha família, já que pra algumas coisas a minha comunicação escrita é infinitamente superior à falada.
eu ainda me importo com as coisas com as quais preciso me importar, mas nesse momento é como se estivesse habitando uma salinha dentro da minha cabeça e todo o resto (que alguns chamariam de vida) é apenas uma coisa que passa na frente da janela da sala, que não parece muito relevante pra mim. e o pior de tudo é ficar dividido entre querer que esse momento acabe logo e o medo de que, ao acabar, eu volte a não ter disciplina ou interesse algum em estudar.
se correr o bicho pega, se ficar...
Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!
oposto de autista, aquele que não é autista. existem outros termos por aí para definir um não-autista, mas o que vejo ser mais recorrente é esse.↩
AH/SD não é tida como uma deficiência para a legislação brasileira até o momento em que escrevo esse texto em agosto/2026.↩
crise que costuma ser provocada por sobrecarga sensorial geralmente se manifesta externamente, podendo envolver choros, gritos, comportamento autoagressivo etc. o shutdown é outro tipo de crise que também costuma ser muito mencionada entre autistas, sendo mais "silencioso" que o meltdown.↩