viciado em jogos sobre jogos de azar
eu nunca fui muito de videogame, quando era mais novo até cheguei a ter em casa um play2 e um xbox 360, mas eles eram mais do meu irmão do que meus - ele, sim, era o viciadinho dos jogos. quando fui morar com minha ex-namorada, ela tinha um nintendo wii e eu até que gostei da experiência - o suficiente pra considerar, nesse ano, a compra de um. também tem os joguinhos que rodam pra PC pela Steam, jogos de navegador e de celular, mas ainda assim, nunca fui de me viciar em jogos que nem rolou com a minha esposa, por exemplo.
MAS esse ano assinamos a game pass (sei lá qual plano) da xbox e AÍ o buraco ficou mais embaixo, my friends, pois descobri uma série de jogos indie, dos mais cozy aos mais estronhos, e, dentre eles, os jogos inspirados em jogos de azar. vou falar um pouco deles hoje - só um pouco mesmo, pois se fosse falar detalhadamente de cada um daria uma postagem muito gigante e estou tentando ser breve.
cloverpit

começando pelo mais arrombado complicado dos três, cloverpit, que é inspirado em máquinas caça-níveis e que é (pra mim) o mais viciante dos jogos dessa lista.
a dinâmica do jogo é simples: sem modo história, ainda que contenha aqui e ali alguns detalhes que dá pra gente interpretar da vida do protagonista sem rosto - que, no final, é uma pessoa com ludopatia1 presa num cubículo de metal com uma máquina de saque encapetada te esculachando e arrancando suas calças pela cabeça de tanto dinheiro que te pede.
as interações são uma mistura de terror com comédia nonsense, especialmente pelos dois elementos que ajudam o game a não ser um jogo de azar, mas sim inspirado pela dinâmica dos jogos desse tipo: os amuletos, que a gente compra na lojinha usando tickets de trevo e as habilidades telefônicas que são ativadas no início de cada rodada. fazendo as escolhas certas você consegue ir aumentando o valor dos símbolos, o percentual de vezes em que eles aparecem, os tipos de padrões que serão exibidos e até se você vai conseguir um jackpot2.
eu acho divertido pra caralho, ao mesmo tempo que é muito enervante, porque como estamos presos nesse cubículo tudo o que podemos fazer é jogar, jogar & jogar para atingirmos os valores de dívida pra lá abusivos que a máquina endiabrada fica jogando no nosso colo. e como nada pode ser simples, né, o jogo ainda lança a braba e mete um 666 como "recurso armadilha": se você o ver no começo, perde os valores que conseguiu naquela rodada; quando avança mais no jogo, se ver um 666 perde tudo o que tem contigo.
o tanto de vezes que passei por esse drama... essa semana mesmo dei uns gritos3 que fizeram minha família morrer de rir, pois perdi mais de 50 mil dinheiros com essa disgrama de 666!!! no final, eu sei que continuo jogando pois é especialmente um jogo de raciocínio lógico e estatísticas, e me diverte demais bolar estratégias para ver como alcançar valores cada vez mais altos (meu máximo foi 144 milhões até o momento).
teve um período em que eu estava mais totoca das ideia, no entanto, e cloverpit acabou me dando umas crises existenciais porque, por detrás de toda a gameplay, eu enxergo uma crítica social foda, maaas isso é conversa para outro post!
buckshot roulette

se você estava procurando um jogo de roleta russa com uma versão capirota do pacman, sua busca termina por aqui, pois achaste! buckshot roulette também é muito fundamentado em estatísticas, especialmente porque você deve contar os tipos de bala que tem na câmara da arma, senão é complicado se manter vivo kkkkkkkk
a gameplay é simples, sem história: você começa num banheiro, sai de lá e vê que tá numa boate techno, então entra numa saleta escura e se depara com um bicho esquisito que te explica as regras do jogo: na sua vez de jogar você tem duas opções, atirar em si mesmo ou atirar no adversário. atirar em si mesmo com uma bala de festim te dá uma jogada a mais; atirar com uma bala de verdade resulta na perda de 1 vida, seja lá pra qual lado for.
quando consegue finalizar (leia-se: sobreviver) a primeira rodada, surgem itens que lembram os amuletos de cloverpit. esses itens são basicamente o que vai te ajudar a sobreviver por mais tempo e tirar todas as vidas do seu adversário.
buckshot é infinitamente mais simples que cloverpit pois tem bem menos fases e recursos pra explorar, então em poucas jogadas você consegue sacar a estrutura e ganhar. eu joguei bastante como uma forma de desligar o cérebro durante umas horas, mas confesso que o fator replay não é necessariamente dos melhores se você quer saber de mergulhar por muuuito tempo no mesmo jogo.
ele tem o modo multiplayer também, onde você pode jogar com até mais 3 players, mas eu achei uma bosta kkkkkkkk os servidores LATAM são bem fracos, o que me obrigava a trocar para outros servidores para encontrar uma mesa, mas aí o problema passava a ser conseguir ficar numa mesa sem ser expulso. não me pareceu uma galera muito receptiva, não, então acabei nem me esforçando muito para continuar nessa modalidade.
black jacket

esse aqui é o jogo mais emocional dos três, pois conta com uma mini história, ainda que o foco seja muito mais na pura jogatina. basicamente você é um cara viciado em blackjack (o famoso 21) que morreu e foi parar no inferno, onde continua jogando 21 com outros espíritos condenados. depois de uma run inteira, você deve enfrentar um boss para passar para a próxima e esse boss é um personagem que foi relevante para sua vida. através dos diálogos que vamos tendo ao longo das partidas, vamos descobrindo pedaços da vida dos personagens e entendendo como o jogo fudeu essas relações, além de, claro, a própria atitude das pessoas não terem sido necessariamente as melhores para ajudar o protagonista a sair dessa.
eu diria que o "defeito" do jogo também é aquilo que o torna bem legal no começo: especialmente a cada boss, vão se soltando frases aqui e ali que mostram como cada personagem pensa, mas considerando que temos 21 níveis de dificuldade e beeeem antes disso conseguimos zerar as principais conquistas do jogo, que resultam numa cena curta para acrescentar ao background daquele personagem, esses diálogos acabam se tornando meio batidos/repetitivos. chegou num ponto que eu só jogava no mudo, pois não fazia diferença ter o som ativado.
sobre o jogo em si: o objetivo básico é você chegar o mais próximo de 21 sem estourar a mesa. para isso, você fica responsável por selecionar suas cartas (cujas habilidades variam de acordo com o naipe) e ir construindo um deck com sinergia suficiente para dar conta tanto dos adversários comuns como dos bosses (e do chefão final, que aparece quando você termina de zerar todos os bosses padrão!) conforme vai acrescentando, removendo ou evoluindo cartas, você consegue ir montando estratégias para não apenas conseguir o seu sonhado blackjack, como também impedir o adversário de jogar direito.
pra mim black jacket é o mais "amigável" dos 3 jogos na questão da estratégia e de conseguir superar os desafios, mas se você for meio ruim de conta pode ser estressante ter de ficar calculando os valores a todo instante, ainda que a mesa (literalmente) possa te dar uma auxiliada, já que faz o reajuste dos valores de acordo com o somatório e habilidades ativas das cartas.
o fator replay é bom - eu cheguei até o nível 16, mas acabei travando nele, antes disso ainda não tinha rolado ficar preso assim -, ainda que as partidas sejam meio longas demais (45-50 minutos somando todas as runs, que são 3 "árvores" cujas opções vamos selecionando a cada disputa ganha), o que torna difícil jogar mais de duas partidas no dia, por exemplo.
num geral, é um jogo bem legal e eu acho que se for considerar o fator "crítica a jogos de azar" é, dos três que mostrei aqui, aquele que mais se esforça para fazer um comentário social relevante.
menção honrosa: balatro!
jogo bonito, jogo formoso! não à toa ganhou o prêmio de melhor jogo indie do the game awards e foi um sucesso estrondoso de vendas; tudo em balatro é muito bem feito, das artes ao modo de construção do baralho, seu formato é muito divertido e loucamente viciante.
teve um período da minha vida em que eu amava jogar pôker online (sem aposta, sempre fui pobre demais pra isso), então me diverti horrores rememorando tudo com esse jogo e ainda por cima podendo montar estratégias que no pôker real seriam impossíveis. não vou falar tanto dele pois é apenas uma menção honrosa, mas que fique registrado que ainda pretendo fazer um post só sobre ele, pois é merecido demais!
Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!
Vício em jogos de azar.↩
Jackpot é como chamamos quando todos os símbolos na máquina coincidem, resultando na pontuação mais alta do jogo.↩
Não se preocupem, galera, é tudo parte do meu show. Eu não fico bravo de verdade, no máximo irritado o suficiente pra querer fechar o jogo e nunca mais abri-lo.↩