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esKAYvendo

tenha gatos e desconheça a solidão

pouco tempo depois de minha mãe se divorciar e ceder a guarda do meu irmão para o pai dele, fomos morar (ela e eu) num apartamento diferente, um tanto menor que nossa casa anterior. levamos nosso único gato (apesar de ela ter sentido impulsos de "roubar" o gato do vizinho. senhoras e senhores, lhes apresento mamãe...) e reorganizamos nossa rotina considerando o novo espaço e a geografia do entorno. eu trabalhava fora de casa, ia pra terapia presencial, via pessoas todos os dias - e ainda assim, era evidente o quanto eu estava solitário.

devo ser sincero: desde que era um mini autista com 8 ou 9 anos, eu já era solitário, então não posso falar como se o fenômeno fosse uma novidade naquela fase aos vinte. talvez o que tenha me pegado foi mudança (que eu odeio), as alterações em certas dinâmicas. eu passava muito tempo na rua, se não trabalhando então provavelmente zanzando pelas ruelas do Centro do Rio de Janeiro, admirando as peculiaridades dos estranhos, o formato dos prédios e tudo mais. estar rodeado de gente que não te conhece é o melhor jeito de disfarçar a solidão.

quando chegava em casa, às vezes acompanhado da minha mãe, íamos cada um pro seu canto. não tínhamos muito o que falar um ao outro. eu alimentava o gato, pegava algo para comer e invariavelmente passava a madrugada desenhando e ouvindo música. essa época não foi de todo ruim, nem de longe - quando penso no tanto que eu tinha de energia para me dedicar ao desenho, chego a sentir saudade dela, desejo ser capaz de revivê-la. mas a solidão, muitas vezes, me fazia sentir alienado de um jeito desconfortável e terrível, até porque eu não fazia ideia de como mudar isso.

corta pro momento presente: moro numa casa super espaçosa, trabalhando a partir dela mesma (desempregado, sim, sem trabalhar? jamais!), com uma família de quinze indivíduos (três pessoas contando comigo e 12 gatos). agora, my friends, estar sozinho se tornou uma realidade bem distante, porque até o senso de espaço foi para as cucuias, e olha que nossa casa é de 2 quartos com varanda & quintal.

hoje, estou sempre acompanhado de um gato, não importa o momento. existe uma piada recorrente entre tutores de gato de que, uma vez com um felino em casa, você nunca mais tem direito à privacidade no banheiro (o famoso "tenha um gato e jamais cague sem companhia"), mas sinto que falta acrescentar de que, se seu número de felinos for de 3 pra cima, então todas as suas atividades terão supervisão. juro, é só aceitar.

numa casa com 12 gatos, minha rotina é basicamente a seguinte: acordo pela manhã e me estico, tomando cuidado para não esbarrar no gato dormindo enroscado nas minhas pernas, me virando devagar para não esmagar o outro gato, que vai estar deitado exatamente na linha das minhas costas. (viu? eu falei que espaço pessoal não existe mais.) ao sair do quarto, algo entre 4 e 5 gatos vão ficar miando dramaticamente aos meus pés, pois estão morrendo de fome. alimento meus 12 pestinhas (todos comem na mesma hora), então começo o processo do café da manhã, indo chamar minha esposa para me acompanhar.

ao longo do dia, vou fazendo minhas tarefas me deparando com gatos pelo caminho como quem vai achando o wally sem nem fazer esforço: se vou lavar roupa, tem um me esperando em cima da máquina de lavar, tomando banho de sol; se vou sentar no sofá para escrever as páginas matinais, então chegam mais dois para se sentar próximo de mim. tomar banho? mesmo que feche a porta, altas são as chances de ter uma gata no basculhante, relaxando enquanto vê a paisagem do alto.

antes de o tempo esfriar e meus pequenos bisbilhoteiros entrarem num modo de hibernação (só interrompido pelo momento sagrado do rango), meu gato mais novo - 1 ano e alguns meses de idade - basicamente não saía do meu lado, me seguindo pra todo canto como um mini-segurança. meu gato mais velho (11 anos e 4 meses) assumia a atitude oposta, me esperando parar em um canto e aí arrumando um espaço para se deitar onde ainda pudesse estar próximo a mim.

pessoas que nunca tiveram relações longas e estáveis com gatos tendem a acreditar numa narrativa que compartilham por aí de que gatos são desapegados, indiferentes e/ou que só se interessam pelos confortos que a vida doméstica traz, como o fácil acesso à comida, por exemplo. isso pode até ser verdade para alguns deles - afinal, cada bicho tem sua personalidade & temperamento, assim como qualquer pessoa -, mas estabelecê-lo como uma verdade aplicável a todos os representantes do grupo é uma atitude burra. nesses 11 anos como cuidador de gatos, o que percebo é que muitos gatos não são apenas grudentos (pegajosos mesmo), como também ciumentos, preocupados e companheiros.

além disso, claro, existe a própria personalidade do tutor na equação. muitas pessoas querem deixar seus animais à deriva, sem carinho, cuidados de saúde ou atenção, e depois esperam não apenas "festinha" como uma devoção que beira o egocentrismo. eis uma coisa que a galera deveria entender pra evitar essas expectativas um tanto narcisistas: amar à qualquer coisa (seja um pet, outra pessoa ou o que for) muitas vezes vai requerer amar sem expectativas de ser retribuído. o cuidar e proteger acontecem não porque se deseja algo em troca, mas sim porque o ato de dedicar-se ao ser amado é a recompensa por si só. não há espaço para o controle, o imediatismo ou a cobrança; e se houver, talvez você deva se questionar porque está pensando dessa maneira.

afinal, você ama seu pet (ou o que for) porque é isso o que está sentindo ou ama apenas na expectativa de que te amem loucamente e te coloquem num pedestal? você ama porque o sentimento te preenche e aquece ou porque espera gratidão incondicional em troca?


voltemos no tempo. ainda nos meus 20 anos, minha mãe resolveu se dar um gato de presente depois da nossa mudança pro apartamento novo. esse novo gato acabou virando o companheiro do meu gato mais velho - os dois tinham a mesma idade, ainda que personalidades bem diferentes, mas que, de alguma maneira, se complementavam. esse belo gatão - o Nuvem - sempre foi muito visado pelas visitas, afinal, gato de raça (mas foi adotado de um gatil, onde esteve por mais de ano, sem que ninguém se interessasse em adotar um gato adulto). queriam brincar com ele, passar a mão em seu longo pelo sedoso, mas ele detestava a atenção excessiva e ia se esconder até irem embora.

desde sua adoção, demorou um bom tempo até que Nuvem quisesse, por conta própria, deitar perto de mim. mais especificamente, entre 4 e 5 anos. ele nunca foi um "gatinho de colo" (termo que minha esposa usa para falar de gatos que gostam de ficar no colo, ser pegos e abraçados) e se você forçasse intimidade, ele só saía fora e ia se esconder. Nuvem sempre foi super dócil e delicado, então nunca teve uma atitude violenta como arranhar ou morder. ele só não queria que se forçassem em cima dele e ponto, cabia à gente respeitar esses limites que ele colocava e coloca até hoje. a primeira vez que o vi dormindo no meu travesseiro, me senti muito vitorioso: era um sinal de que ele confiava em mim!

conforme os anos foram passando, Nuvem foi ficando mais próximo e me procurava pra pedir carinho ou só deitar por perto. valeu a pena ter paciência e esperar pois é muito mais recompensador ser amado assim, sabendo que esse bichinho tem plena certeza de que pode confiar em mim, que sou alguém com quem ele pode baixar a guarda e, mais do que isso, esperar ser amado sem cobrança.

outras coisas também foram mudando no Nuvem, com relação à questão das visitas: se antes ele demorava meses para sair para cumprimentar pessoas novas que vinham em casa, hoje, quando acompanhado, ele faz o mesmo percurso em questão de 3 a 4 semanas (no tempo das visitas vindo aqui). pra quem está de fora ele ainda parece um gato arredio e "antipático", mas só quem esteve com ele nos últimos 11 anos sabe que ele é um docinho, só precisa ser deixado fazer as coisas no tempo dele. e daí que pode demorar "muito"? amor não é uma corrida.

e veja bem: estar com os gatos é aceitar que, muitas vezes, você não vai mudar a personalidade deles1. gatos não são cachorros, ainda que alguns sejam tão amorosos que sim, pulam em cima de você!!! haha mas não espere esse comportamento por padrão, cada gato tem seu jeito de demonstrar afeto. para alguns, vai ser esfregar a cabeça na sua mão, para outros vai ser morder seu cabelo ou trazer bichinhos mortos de presente. alguns gostam "apenas" de estar por perto, de deitar no mesmo ambiente que você, deixando implícita a mensagem: ei, confio em você para me ver dormindo & também quero que você saiba que, se precisar de mim, estou por aqui.

bem, talvez no final o título desse post seja muito simplista: vai ver que a melhor nomenclatura seria "ame um gato & desconheça a solidão", já que esses carinhas sabem ser amorosos como ninguém quando tratamos de cuidar direitinho deles!

pra fechar esse post, deixo aqui uma foto dos meus dois gatões mais velhos, cuja amizade dura até hoje, uma década depois:

Foto de dois gatos adultos dormindo numa cama de colcha vermelha. Nuvem, um gato branco angorá de pelo longo, está deitado virado para a esquerda. Alpha, um frajola com mais preto que branco, está deitado na mesma posição que Nuvem, mas para a direita. A forma como eles se deitam, com as costas se tocando, faz a imagem parecer um coração.


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  1. aqui é importante diferenciar o que é a personalidade de um gato e o que é um problema adaptativo. um gato ser recluso é normal, mas não é normal que ele esteja o tempo inteiro sendo agressivo ou fazendo as necessidades onde não deveria, por exemplo. investigar isso é importante e também faz parte de amar e cuidar.

#beda #gatos #vivência