Ted Lasso & meu ranço por boas pessoas
Assisti dois episódios de Ted Lasso e preciso falar a respeito. Nenhuma análise de importância pode ser extraída em tão pouco, por isso hoje meu motor não é tentar parecer esperto — eu sempre acho que desisti de me fingir de sabidinho, mas às vezes ainda me pego nesse velho hábito —, mas sim dar uma vazão pras risadas e lágrimas que deixei escapar.
Deux sabe que ultimamente vivo com ranço de gente que só faz análises assim, na base da emoção (“esse é o MELHOR livro do ano”, “com certeza esse é o PIOR livro já escrito”) e não, não é que eu odeie gente emocionada ou ache que as pessoas não podem só gostar/odiar as coisas em paz, mas acho meio chato viver em extremos. Um dia, quem sabe, eu desenvolvo um texto só sobre a falta de nuance que parece atingir a percepção de muita gente atualmente. Mas hoje, é só de Ted Lasso que vou falar.
É muito difícil que eu me lembre de personagens que são boas pessoas, até porque, na maioria das vezes, nem sequer consigo sentir muita afinidade por eles. Tendo a achar que essa minha predisposição a revirar os olhos quando surge uma personagem meio “ain porque ela é tão legal, ela é tão galera!” seja uma combinação de duas coisas:
skill issue da autoria, que não sabe como escrever uma pessoa boa que não pareça só, sabe… uma figura 2D, extraída diretamente de um livreto religioso ensinando crianças sobre como se comportar.
eu ter me desenvolvido na base de watchmen e seus derivados tão sombrios, tão perturbados. (não falo isso como algo bom, mas sim como mera constatação. hoje em dia acho que tanta misantropia é só uma construção pra lá de individualista do capital, desesperado pra segregar as pessoas e destruir comunidades. mas enfim, quem se importa, né? /ironia)
Minha visão sobre a bondade na ficção sempre foi muito cínica, impaciente, cheia de desprezo. Hoje em dia, apesar de ver muitas obras fazendo um trabalho pra lá de sofrível ao tentar representar Pessoas Boas™, acho que minha fúria se abrandou. Eu me tornei “mole”, mais disposto a entender e relevar defeitos nessas caracterizações.
Escrever Pessoas Boas assim, com letra capital, é meio complicado porque acho que muitos de nós não conseguimos elencar de cabeça uma pessoa real que cumpra os requisitos sem, em algum momento, “escorregar” — as pessoas são contraditórias, então faz parte, mas quando se trata de criar arte a falta de referência pode ser um complicador enorme. Escrever sobre aquilo que nunca vimos requer uma sensibilidade e cuidado que poucos estão dispostos a desenvolver, pois dá trabalho. (Isso mesmo, eu acho que Pessoas Boas são um tipo de Unicórnio. Pronto, falei!)
Então… Ted Lasso. Dois episódios. Pensamentos cujo combustível veio diretamente da Fábrica dos Emocionados, Endereço Rua 10 Estrelas, situado no bairro Mudou-a-Química-do-Meu-Cérebro-ville. Posso até tentar dar uma disfarçada jogando algum comentário técnico por aqui — quer parecer sabidinho no audiovisual? mencione a fotografia —, mas a realidade é que fiquei pegado por Ted Lasso porque múltiplas emoções tomaram conta do meu painel de uma vez só: encantamento, raiva, divertimento, descrença.
Ted Lasso enquanto personagem é muita coisa: pra começar, ele é um idiota, como define a Sra. Whelton, a dona do time de futebol que resolve contratá-lo. Ted Lasso faz piadas de tiozão que não ofendem ninguém e que te fazem rir pelo constrangimento de pensar que ele vê alguma graça nelas. Ted Lasso é um homem que surpreende por gestos simples, como perguntar o nome de um dos funcionários dos bastidores do time, Nathan, que provavelmente não é reconhecido nem pelo RH. Ted Lasso é estranhamente gentil, não só para um homem, mas para um ser humano num geral.
Quem já conheceu um Ted Lasso? Eu com certeza nunca vi alguém semelhante na natureza, infelizmente (não me leve a mal, eu conheci, sim, pessoas adoráveis, boas e carinhosas, mas Ted Lasso não se parece com ninguém que eu já tenha visto). Se uma figura dessas é tão rara, então por que sua representação não me deixou incomodado e sim, emocionado? Por que eu chorei quando Ted Lasso meramente olhou fascinado pra uma garota jogando bola com seus amigos ou quando ele ofereceu uma festa de aniversário pra um jovem jogador há muito tempo longe de casa?
Vira e mexe converso com minha esposa sobre a razão de escrevermos, cada um elencando nossos motivos — inclusive ela publicou uma reflexão a respeito, que eu recomendo bastante! Tanto ela como outras pessoas já me disseram que escrevem para poder entender o que estão pensando ou sentindo, e acho que isso é o que define perfeitamente o que faço agora, enquanto redijo esse texto.
O que tem em Ted Lasso que provocou tamanha reação em mim?, é a primeira pergunta que me surge, mas tantas outras vão brotando que preciso respirar fundo e dizer a mim mesmo pra ir com calma, pra não correr demais. Vou descobrir aos poucos, conforme escrevo.
Ted Lasso é um bobalhão, mas não só isso: Ted Lasso me parece um homem terrivelmente sábio. Ted Lasso não só “emana energia de gente boa” ou “é sabor boa pessoa”; Ted Lasso é, inegavelmente, uma boa pessoa e não sei pra vocês, mas uma Pessoa Boa evoca um respeito e admiração muito maior do que qualquer chefe de estado ou bilionário poderia receber da minha parte. Uma bondade gentil, sem arrogância nem expectativas de reconhecimento. Uma bondade tão genuína que só acontece; é um momento que passa e quando você vê a pessoa se foi, te deixando congelado no lugar. (Você não se mexe pois ainda está absorvendo aquele gesto de entrega tão pequeno e ao mesmo tão significativo, que te desarmou com tanto cuidado que te deixa com vergonha.)
Aliás, preciso fazer uma pequena correção: eu disse alguns parágrafos atrás que nunca encontrei uma Pessoa Boa assim, in natura, mas percebi que foi uma inverdade. A maioria das crianças que encontrei são pessoas boas. O que acontece para mudá-las… bom, a gente sabe como funciona. Muitos de nós estivemos no mesmo caminho, eu acho, sendo quebrados aos poucos por pais, mães ou até famílias inteiras, tendo que ouvir para deixarmos de ser bobinhos, pra criarmos dentes, pra não deixarmos os outros passarem a perna na gente, pra nos impormos, pra sermos espertos, pra isso e aquilo e mais aquilo outro. Se no início devemos ser complacentes até demais, ultrapassando os limites da nossa autonomia e desejo — “beija seu avô!”, “empresta seu brinquedo pro amiguinho” —, depois somos ridicularizados por confiarmos demais, por sermos inocentes ou gentis com quem não devíamos. Ouvimos que somos “sangue de barata”, que não temos “culhões”, e por aí vai. Não me surpreende a evidente escassez de Pessoas Boas.
Mas bem, não estamos aqui pra terapeutizar. Estamos aqui pra analisar ficção (ou seja, terapeutizar, mas de um jeito menos evidente).
Acho que evito falar sobre a forma como sou impactado por certas obras não porque quero soar Profissional & Sério, mas porque isso pode ser uma coisa constrangedoramente expositiva, como carregar seu coração na mão^[¹] — é perigoso andar por aí correndo o risco de ser apunhalado, às vezes por mero entretenimento.
Talvez parte do meu ranço por Pessoas (que se acham) Boas seja porque muitas delas usam a bondade como uma forma de obter alguma coisa, e não apenas porque querem ser boas. Muita gente utiliza de uma suposta bondade como ferramenta, às vezes por que quer amansar um adversário, às vezes para se colocar como superior ao outro. E vai ver que é por isso que Ted Lasso me causa uma inveja tão absurda: eis aqui um homem sem escudo e sem bandeira de autopromoção, sem medo do outro.
Ted Lasso tem seus problemas — está longe do seu filho, passando por complicações evidentes na relação com a esposa —, mas sua reação a eles não é violenta ou raivosa. Rodeado por “gente como a gente” — pessoas contraditórias, frustradas, egoístas, atormentadas, chatas e/ou desagradáveis —, Ted Lasso não é gentil por ser alienado ou estar numa bolha que sempre corresponde a ele; muito pelo contrário, as pessoas parecem até que bem inclinadas a serem escrotas com ele só porque sim.
Uma das coisas que mais achei fascinante no personagem foi que ele não aparenta perder a própria paz tentando desvendar os pensamentos sombrios dos outros ou mergulhando numa ansiedade sem fim ao querer descobrir se existem segundas ou terceiras intenções por trás dos gestos e falas dos outros, ou mesmo se culpando por receber essa chuva de babaquice sobre ele. As pessoas são o que são, e Ted Lasso só tem poder sobre o que ele mesmo é. Ele não se pergunta se as pessoas merecem ou não que ele seja gentil; ele só é, porque é isso o que significa ser uma boa pessoa.
(Alguns diriam que ele é fraco, que só não se quebra porque está num cenário de ficção e o roteiro vai favorecê-lo onde for interessante favorecer, mas meu hot take é de que se as pessoas fossem mais gentis sem propósito, sem selecionar “beneficiários” para serem agraciados com sua bondade, talvez o reflexo social de foder o coleguinha fosse menor. Não sei, vai ver só estou sendo otimista demais.)
Ted Lasso é tão terrivelmente sincero que é isso o que o torna engraçado pra mim — e capaz que pra muitas outras pessoas. Não me parece que Lasso esteja engolindo sapo enquanto sorri de forma relaxada, que sorria por estar cavando um “cessar-fogo” dos tantos insultos que recebe da parte de repórteres inconvenientes ou de seus jogadores mal-criados. Se Higgins, o secretário meio assecla, meio alívio cômico da Sra. Welton, sempre dá um sorrisinho nervoso por querer ser poupado das falas ferinas da chefe, Ted Lasso só não se abala. Lasso não sorri por performance como a Sra. Welton, nem por ser meio “doidinho” como Kelly, modelo e namorada de um dos jogadores-problema (eu diria que tal personagem é o idoso Ney deles, mas Jamie ainda não caiu nenhuma vez em dois episódios, então vou poupá-lo do comparativo). Lasso só sorri porque quer sorrir e está feliz.
Que loucura, né?
Tendo assistido apenas dois episódios, é muito difícil fazer qualquer tipo de previsão para onde vai se desenrolar a narrativa, mas chuto que não é necessariamente a intenção fazer a história tomar rumos ambiciosos; não acredito que o objetivo principal seja tornar o time o melhor da Inglaterra pois os troféus são os amigos que fazemos pelo caminho tornar os jogadores melhores como pessoas e também como um coletivo é bem mais significativo.
Se puder depositar aqui uma expectativa financiada 100% por mim mesmo, eu acharia ótimo descobrir como Ted Lasso se tornou o cara que é hoje — ver se encontro, assim, um pedaço do mapa para esse caminho que tanto me atrai. De viver a vida como se ela fosse a melhor coisa que me aconteceu, aposentar as armas (o peso delas é terrível, sério) e poder convidar aqueles que esbarrarem em mim a fazer o mesmo.
Nota:
[¹]: Inclusive, isso me fez lembrar dos Odds, uma espécie alienígena de Doctor Who. Eu nunca fui muito fã de DW, mas assiti algumas tantas temporadas com minha amiga que ama a série, e me recordo de ter ficado muito impactado no episódio em que eles apareciam. Uma espécie alienígena que se torna gentil e não violenta por estar sempre carregando o próprio coração na mão, e ainda por cima acaba sendo escravizada por isso? Well, Metáforas Foram Feitas.
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