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sobre dashcam (2021): meio balzac das ideia

Atenção!

O post abaixo não é uma resenha livre de spoilers! Na verdade, está mais para um amontoado de pensamentos que me ocorreram depois de assistir o filme dashcam, então vão ter revelações de enredo, inclusive do final.


Dashcam é um filme que entrou no meu radar há um bom tempo, mas por motivos de streamings são um bando de arrombado muita dificuldade em achar onde assistir, fui postergando fazê-lo e acabei "esquecendo-o" na minha lista mental infinita. Tendo começado a usar o Letterboxd, no entanto, a memória voltou e resolvi pesquisar um pouco mais qualéquié do negócio.

Talvez em outro post eu escreva só sobre o "sistema" que uso para decidir se assisto ou não um filme, mas, pra resumir, como a maior parte do que assisto é terror, muitas vezes eu estabeleço um "filtro" a partir das notas e avaliações do IMDb. Se eu fosse seguir esse filtro dessa vez, nem chegaria perto de dashcam, pois as notas são horríveis.

O que me fez insistir é o fato de que sou muito viciado em found footage e adoro as novas representações tecnológicas que o gênero tem trazido, com direito a lives, apps de mensagem, shots de navegador etc (inclusive comecei uma lista para registrar esse tipo de filme quando assisto).

Então sobre dashcam: booooy kkkkkkkkkk Que viagem!!! Tanto a história como as informações extra-história (bastidores, entrevistas) me deram o que pensar.


A visão geral do filme é a seguinte: Annie Hardy, uma cantora indie de extrema-direita, antivaxx, MAGA e teórica da conspiração, para fugir das "medidas severas" impostas pela pandemia de COVID nos EUA (RISOS) resolve viajar para a Europa, mais especificamente a Inglaterra. Lá, ela ficaria com um amigo (Stretch) com quem anteriormente tinha uma parceria musical... ou pelo menos era isso na cabeça dela, pois ela nem se dignou a avisar o cara, só saiu invadindo a casa dele mesmo.

Só por isso a gente já tira que Annie é completamente sem noção, mas ela faz questão de ir tendo comportamentos cada vez piores, que vão de desrespeitar o uso de máscara em estabelecimentos fechados, entrar em treta com pessoas que querem seguir as medidas de distanciamento/lockdown e até roubar o carro de Stretch.

É esse último evento que desencadeia o terror para Annie.

Enquanto Stretch e a namorada discutem sobre o que fazer com uma doida que pode virar vetor de COVID em casa Annie, ela resolve pegar o carro e sair para streamar a sua live de música. Com isso, ela percebe que Stretch deixou o celular no veículo e está recebendo solicitações do app de entregas de comida com o qual trabalha.

Annie aceita a solicitação, na intenção de ela mesma comer a comida do pedido pois why not, não é mesmo? O que é prejudicar seu amigo, um restaurante e um cliente desavisado? Em plena pandemia? Nuh, nada demais!

Quando chega no restaurante, ela se depara com o local estranhamente vazio (meio energia de liminal space, inclusive). Depois de esperar um tempinho, uma funcionária aparece, explica que foi um engano ter deixado o restaurante disponível até aquela hora (hmmm), mas aproveita a deixa para perguntar se Annie não poderia fazer um favor pra ela e levar uma amiga até um endereço?

O pedido é estranho (e pra lá de suspeito), mas a mulher está disposta a pagar. Com o senso de preservação torando (ironia), Annie resolve aceitar, mesmo que tenha a leve impressão de que está se metendo em algo ~meio assim~ tráfico humano. Pagando bem, que mal tem, né?

E assim ela acaba com uma idosa aparentemente senil no carro roubado de Stretch, acreditando que só precisa dirigir do ponto A ao ponto B. (Detalhe importante: vemos isso o tempo inteiro através da live de Annie, que não se importa em filmar pessoas e conversas íntimas sem consentimento.)

O que vem na sequência é uma sucessão de doideiras dignas de um bom filme de terror found footage: a véia misteriosa apresentando poderes bizarros, uma mulher desconhecida e armada caçando Annie, acidentes de carro, sanguinolência, cultos suicidas, horror cósmico. Eu não vou mentir: eu adoro assistir filme de terror em que pessoas arrombadas se fodem, então amei ver Annie caindo nesse buraco cada vez mais fundo que se chama "As Consequências das Suas Próprias Ações de Merda".

Mas nem todo mundo concorda comigo e é sobre isso que eu fiquei matutando até chegar nesse post.


A Annie Hardy que vemos no filme é tanto o nome da atriz como da personagem, seguindo uma vibe meio Bruxa de Blair de usar os atores como personagens. Outra coisa que também existe na vida real é a tal live de música no carro que Annie streama. Ah, e pra não perder o timing: Annie interpreta uma versão "semi-ficcional" dela em dashcam.

Isso significa dizer que sim, ela é antivaxx, apoiadora/parte da MAGA, teórica da conspiração... pero no mucho: segundo entrevista do diretor do filme, a Annie do filme é uma versão muito mais exagerada da Annie da vida real. E é justamente aí que começam as críticas da galera ao filme.

Tirando por algumas resenhas que li no letterboxd, a maioria 1 estrela ou até meia estrela, muita gente pareceu odiar dashcam por conta de Annie, que é inegavelmente a protagonista. Stretch é até um personagem que divide o protagonismo em tela, mas a live continua sendo de Annie, então não é errado colocá-la como aquela que dá a perspectiva da história.

Sem saber sobre a parte da "versão semi-ficcional" ou seja, que a fdp é REALMENTE fdp, minha impressão inicial foi de que em pleno século XXI as pessoas estavam odiando um filme meramente pelo fato de a protagonista ser uma mulher escrota. Isso tem acontecido com Plur1bus, a nova série do Vince Gilligan para a AppleTV, o que me deixa bem estressado, então não seria necessariamente novidade.

Partindo do princípio de que era a mesma situação, resolvi assistir o filme.


DISCLAIMER!

A partir daqui o texto tem vários spoilers, especialmente do final, então se você não quiser receber informações prévias do filme, interrompa a leitura.


Dashcam não é nenhuma obra-prima revolucionária do terror, mas pra mim isso nunca foi critério para desgostar de uma obra. Se é terror found footage com um mínimo de coerência, então eu tenho tendência a pelo menos achar divertido e foi exatamente assim que me senti enquanto assistia esse filme: divertido, entretido, hipnotizado pela próxima merda que viria, teorizando o que caralhos estava acontecendo.

Annie era insuportável, sim, mas tudo no enredo estava contra ela, dos personagens secundários aos eventos sobrenaturais ameaçadores, então particularmente eu me senti "vingado" por ter suportado a falação de merda dela até chegar a hora em que ela toma vários balança-caixão.

Numa discussão no Reddit da época em que o filme foi lançado, a maioria dos usuários se dividia em dois perfis: os que detestaram dashcam/rob savage/blumhouse por ter dado palco para Annie Hardy e tudo o que ela representa (sinceramente? bem justo terem essa reação, eu provavelmente pensaria a mesma coisa na época) e aqueles que queriam se mostrar "contra o sistema" e diziam que Annie Hardy era sua nova personalidade favorita.

Algumas pessoas chegaram a comentar que o filme concordaria com o posicionamento de Hardy pois "ela não morria no final", e aí eu acho curioso como a interpretação dos espectadores pode mudar quanto ao mesmo material, porque pra mim o final não é "uhu ela sobreviveu, apesar de tudo", mas sim o oposto: Annie passou por um monte de merda, causou a morte de várias pessoas — inclusive de alguém que ela gostava, seu amigo Stretch —, teve de adquirir sabe-se lá quantos traumas e no final, no último instante de cena, começa a tossir copiosamente mostrando que possivelmente pegou COVID no meio de toda essa palhaçada que ela poderia ter evitado se apenas tivesse ficado em casa fazendo o cacete do distanciamento social kkkkkkkkkk

Sinceramente, gosto de interpretar que ela passou por tudo isso (o que inclui entrar no soco com uma entidade de horror cósmico que parece saída de Silent Hill) e no final morreu da doença que ela jurava ser uma mentira do governo porque seria uma ironia perversa bem divertida.

Acredito que muita gente tenha interpretado que a Annie do filme sobreviveu e seguiu a vida porque os créditos mostram ela rimando sofrivelmente com os nomes da galera da produção — ou simplesmente porque ela não morreu pro monstro e a implicação de uma morte fora de tela não é o suficiente para dar conta do ódio que uma pró-Trump MAGA rançosa desperta.

Adicione o discurso meia boca de Rob Savage sobre "ai mas eu convivo com gente que pensa diferente de mim" e considere que qualquer exposição continua sendo exposição e pode levar a disseminação e fortalecimento de pensamentos bostas, e pronto, você tem uma galera bem revoltada (e com razão) desse filme ter sido feito focando numa pessoa que tem a pachorra de fazer piada com uso de máscara durante uma pandemia em que milhões morreram.

Eu não vou tirar a razão das pessoas que odiaram o filme por Hardy, pelo final ou pela história em si, mas queria expor minha visão porque sou alguém diametralmente oposto ao pensamento político de Hardy e tendo assistido a obra em 2026 tenho o "privilégio" de ver a forma como o pós-lançamento se desenrolou.

Minha opinião sobre dashcam é similar a de outra pessoa que vi no reddit falando que interpreta a obra como um terror que parodia justamente o grupo político que Hardy tenta impulsionar.

O maior sinal de que isso funcionou é a derrocada da própria Annie Hardy (a da vida real), que simplesmente desapareceu da grande mídia, se tornando (mais) irrelevante. Vi algumas pessoas comentando que ela deu uma entrevista em que fala como dashcam "arruinou sua carreira", mas o negócio é tão obscuro que fiquei com preguiça de fazer o esforço de procurar — só de a pesquisa nem fazer questão de mostrar links recentes a respeito dela já me parece uma confirmação de que é verdade.

Hardy também teria dito que detestou a forma como foi representada pelo filme e, novamente, se não é alguém chorando depois que a água bate na bunda! Acho hilário da parte dela (e do diretor Rob Savage) tentar usar o argumento de que "a Annie de verdade é bem mais comedida", porque no final isso não importa: se o grupo que você representa tem como figuras principais pessoas exatamente como o seu personagem bosta, então a mensagem correta foi passada. (E isso porque nem citei os comentários do pessoal na live de Hardy, que trazem ainda mais do suco dos conspiracionistas right-wing estadunidenses.)

Alguns podem argumentar que talvez se a atuação de Hardy fosse menos "caricata" — já que é esse o adjetivo que tentam empurrar — o filme não tivesse recebido o tanto de backlash que levou no seu lançamento, mas eu acredito que se a atuação dela não fosse como fosse ela seria uma pessoa completamente diferente e não despertaria o tanto de revolta, ojeriza e desprezo que uma pessoa que apoia anti-ciência, o movimento anti-vaxx e, de tabela, um monte de supremacista branco, deve despertar na gente.

Num geral essa situação do filme como um todo me faz relembrar do texto da editora Biblioteca Azul sobre Honoré de Balzac, uma introdução no primeiro volume do que reúne suas obras completas. Balzac foi um autor do século XIX e sua maior obra se chama A Comédia Humana — dita a maior tanto por importância quanto por tamanho mesmo, pois são múltiplos romances, novelas e contos. Fazendo referência à Divina Comédia de Dante, o objetivo da Comédia Humana era retratar a vida dos ricos e nobres da sociedade francesa em geral, misturando personagens a pessoas reais. Balzac teria feito tal retrato com tanto esmero que alguns historiadores tratam seus textos como verdadeiros documentos históricos.

Ok, mas onde entra Balzac em dashcam?

Bem, durante sua vida Balzac foi um fervoroso defensor da monarquia de Bourbon, uma família que governou durante séculos vários países da Europa e acabou deposta pela revolução burguesa na França em 1830. Tendo vindo de uma família pobre que sempre estava se esforçando para alcançar a nobreza e sendo ele mesmo um “falso nobre”, Balzac era praticamente um vira-lata de madame: aquela pessoa que não faz parte de uma classe social mais elevada, mas insiste em tentar se manter no meio. A questão é que, pelas suas obras, não necessariamente você consegue fazer essa inferência.

Isso porque Balzac retratou tão fidedignamente as pessoas que queria registrar, que o resultado foi mostrar como os nobres podiam ser babacas e o pessoal revolucionário e/ou pobre — que aparece em algumas partes de sua Comédia, pois não são o enfoque necessariamente — eram pessoas com certa razão em suas reinvindicações. No final, mesmo que fosse contra as suas convicções, pelo esforço de mostrar as coisas como elas eram, não tomado de um juízo de valor, mas de um desejo de representar a realidade em suas obras, Balzac acabou expondo o que havia de pior naquele modo de vida que ele buscava e no grupo que tanto bajulava.

Em sua “sina” de ser um bom escritor, é divertido perceber que o cara acabou (sem querer) cuspindo na cara de suas crenças elitistas.

Quando olho para dashcam, todas as resenhas negativas e os resultados na vida de Annie Hardy, não posso deixar de pensar que a obra cumpriu até bem demais o seu papel e, ao invés de servir de propaganda aos supremacistas e negacionistas, simplesmente os revelou como os vermes que são.

Com isso, acredito que é mais do que justo gostar do filme.


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