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[resenha] a imaginária de adalgisa nery

Desde que comecei a frequentar a biblioteca local, montei uma lista de leituras baseada no acervo dela; notando uma discrepância entre autores estrangeiros e autores brasileiros, resolvi pesquisar com mais afinco por autorias nacionais para suprir essa falta. Foi assim que cheguei no romance a imaginária, publicado em 1959 pela poeta, escritora e política Adalgisa Nery.

Adalgisa foi conhecida especialmente por sua poesia, mas como não sou muito próximo do meio nunca tinha ouvido falar nela. Pesquisando mais a seu respeito e de a imaginária, descobri que para alguns esse foi um “livro-vingança”, o que me chamou atenção. Trocando seu nome por Berenice, no livro Adalgisa descreve sua infância complicada com os pais, irmãos mais novos e problemas na escola, até chegar naquele que ela nomeia como seu período mais conturbado: seu casamento e a convivência com a família mentalmente instável do marido.

Se tivesse de resumir esse livro em poucas linhas, seria algo como “essa mulher aguentou um monte de bosta e ainda foi simpática”.

A tal “vingança” do romance está no fato de que Adalgisa expôs uma nova faceta do falecido marido, o pintor Ismael Nery. Conhecido e respeitado no ambiente boêmio e artístico que frequentava, após a publicação de a imaginária vários amigos diriam que estavam “conhecendo uma nova faceta de Ismael” — como não é de surpreender ninguém, mais uma história em que um homem é tão bacana, tão simpático em público, mas em casa é um total escroto. Procurando uma edição digital do livro, encontrei uma edição mais recente digitalizada, onde a biógrafa de Adalgisa, Ana Arruda Callado, escreve uma introdução. Nela, ela cita um ensaio chamado Vampirismo masculino, e que ela acredita que descreva bem a relação entre Ismael e Adalgisa; ainda não li o ensaio, mas de fato não consigo pensar num termo mais preciso.

A imaginária tem uma história “simples” e, acostumados como estamos com a realidade da violência marital, traição, mulheres que se encolhem para caber na caixinha cheia de pregos do companheiro, para um leitor do século XXI não conta nenhuma novidade no tocante às merdas que uma mulher pode sofrer na vida.

Se você está de saco cheio de ler sobre mulheres sofrendo na mão de homem, então essa não é a leitura recomendada, vai te fazer passar muita raiva (eu passei). Se você consegue suportar histórias assim, no entanto, e tem interesse num romance altamente psicológico e introspectivo, com uma narrativa que explora da superfície ao interior da protagonista, então esse é um livro que vai te absorver e te botar para pensar.

Ainda não li nenhum livro de poesia de Adalgisa, mas em vários parágrafos me vi parando para admirar a beleza da composição do texto, relendo-os duas, três vezes. Nesse ponto o lado negativo da biblioteca se manifesta: minha vontade foi de riscar o livro inteiro, destacar trechos e fazer anotações sobre o que sentia lendo. Ainda não adquiri o costume de ler com um caderno à mão, mas com as leituras que tenho feito me parece que vai ser um hábito que preciso construir a jato.

Pra ter noção, o que me fez escolher a leitura desse livro foi justamente sua primeira página, que começa assim:

Às vezes, o pensamento me vem, como agora. É como se todos os instantes em que vivi, tivessem deixado uma profunda marca sobre as múltiplas facetas do meu ser. Estou ao largo da madrugada. Chego à janela aberta. O primeiro plano da paisagem é a rua asfaltada, cortada por trilhos brilhantes e polidos pelo uso. O segundo plano é um pequeno morro salpicado de casebres. Sobre todas essas coisas um imenso e profundo céu, e o silêncio. Se eu pudesse alcançar o cume da mais alta montanha do universo e varrer com o olhar toda a extensão do globo terrestre, veria que a única coisa que existe é a solidão.

Fiquei realmente fascinado pela escrita de Adalgisa e também pela sua figura, então além de ler outros livros de sua autoria quero ler a biografia escrita por Ana Callado, Muito amada e muito só (1999).


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