quem verá nossos backups quando tivermos partido?
Esse texto é um oferecimento das minhas Páginas Matinais.)
Hoje me peguei pensando em como vai ser o futuro dos diários, anotações e histórias depois que as pessoas responsáveis por eles tiverem morrido.
A origem desse pensamento veio de um livro que tenho na estante e que ainda preciso concluir a leitura: Sem tempo a perder, de Ursula K. Le Guin. Conhecida especialmente por suas obras de fantasia e ficção científica, aos 81 anos Le Guin resolveu escrever um blog — o título mencionado é uma coletânea de melhores textos que ela publicou online. O material gira em torno especialmente de artigos de opinião, memórias e breves ensaios. Você pode acessar o blog aqui.
Já tendo trabalhado com hospedagem de site e registro de domínios, tenho noção de que um site e blog como o de Le Guin não se mantêm sozinhos — é necessário, no mínimo, pagar a hospedagem e a renovação do registro. Dessa forma, consigo supor que seus herdeiros e/ou editora estejam mantendo ativo esse material. Mas e quem não possui um herdeiro, agentes ou editoras? Aqueles que são anônimos, desimportantes, “normais”?
Quem vai se importar em manter nossos diários de apps, histórias nunca lançadas, emails pessoais? Com LGPD em voga, senhas, autenticações em dois fatores, biometria facial, backups corrompidos, como vão ter acesso a essa parte de nós? Isso deveria ser uma preocupação real ou eu só sou doido? Reflexões.
Talvez eu só esteja me preocupando excessivamente, criando um não-problema com o qual me ocupar; afinal de contas, existem projetos como o Wayback Machine que se preocupam em armazenar (e disponibilizar para acesso livre) o cache de conteúdos que de outra forma teriam se perdido. Além disso, o problema oposto é que tem tirado o sono de muita gente: mesmo bebês em gestação ou recém-nascidos já possuem vestígios tecnológicos. A tendência é que todas as gerações a partir de agora nunca mais saibam como é a sensação de não estar na internet.
Qualquer mínima ação nossa — de ir na padaria comprar pão ou marcar um exame — está sujeita a um registro online, seja ele financeiro, administrativo ou o que for. Isso quando nós mesmos não documentamos como uma espécie de “marco”: “eis-me aqui, numa fila gigante, tirando uma foto da minha cara para mostrar a não sei quem que eu vim resolver burocracia”.
Novamente, no entanto, eu me volto para o passado. Quantas e quantas vezes as cartas trocadas entre figuras importantes não se tornaram publicações por si só? (Aqui em casa mesmo possuo um exemplar de Cartas a Theo, uma reunião de cartas de Van Gogh para seu irmão mais novo.) Excetuando por casos em que uma pessoa foi deixada de sobreaviso para destruir tal material — como ocorreu com a poeta Emily Dickinson, que solicitou que boa parte das suas cartas fosse destruída —, essas “pegadas manuscritas” deixadas pelos outros acabaram assumindo um papel importante para múltiplas áreas, como a da análise literária, a preservação da memória, o entendimento histórico-social de uma figura ou período.
Independente de serem O Diário de Anne Frank (polêmicas à parte!) ou os bilhetes inusitadamente poéticos que seu avô deu para sua avó nos tempos de namoro, esses vestígios são relevantes.
Tendo finalizado recentemente a leitura de Um jardim de delícias de Joyce Carol Oates, fiquei um pouco obcecado pela autora e sua escrita. Pesquisando a respeito dela, descobri que Oates mantinha um registro de suas cartas durante uma fase de sua vida, mas depois passou a salvar apenas o conteúdo de seus emails. Pelo contexto em que essa informação foi colocada, não me parece que seria um simples backup de email cotidiano, mas sim algo com um objetivo mais a longo prazo — talvez uma publicação de coletâneas como as que citei anteriormente.
Isso me deixou pensativo, pois tirando JCO nunca tinha ouvido falar de nenhuma outra autoria que fizesse o mesmo. Assim me surge a dúvida: será que as pessoas não estão se importando em fazer algo do tipo ou isso simplesmente nem lhes passa pela cabeça?
Provavelmente a segunda opção seja a mais lógica; afinal, quando tantos contatos à distância rolam por mensagem instantânea, áudios, ligações de vídeo ou lives, pra quê mandar email? Pouquíssimas pessoas querem ter contato com isso, mesmo em contextos formais ou profissionais como trabalho, por exemplo. E quando rola, tem bastante gente usando IA para fazer o texto por elas, o que é o mesmo que nada. No meio disso, mesmo com backup, o Whatsapp ainda faz questão de perder registros e mais registros, deixando buracos no nosso registro de comunicação. “A vida não tem backup”, talvez alguns argumentem, e é fato, mas será que, como consequência da nossa “era de facilidades”, onde tudo é digital, estamos fadados a perder boa parte dos registros que nos tornam, bom… nós?
Mais um não-problema que me pego mastigando: o que será do conteúdo dos usuários dedicados que alimentam fanfics de 200 mil palavras por anos seguidos, os donos de Tumblrs sobre hiperfocos muito específicos ou um mero “who” que às vezes posta seus pensamentos no seu pequeno blog indie (oh hi it’s me)?
Claro, essa parece uma linha de problema divergente do começo do meu texto: blogs, perfis do tumblr ou contas do AO3 são material acessível para qualquer um (geralmente) enquanto histórias mofando em pastas, emails e diários digitais são pessoais — cada um com seus problemas, certo? Não tanto, eu acho, quando consideramos que tudo isso, no final, muitas vezes está associado a um servidor de terceiros.
Meu Bear Blog, o Tumblr ou o Archive of Our Own estarão aqui apenas enquanto houver alguém (ou uma empresa) para manter o servidor ativo. O mesmo para meus emails no Gmail e meus backups no servidor de X ou Y empresa. Se antigamente a preocupação com a perda de materiais era de origem física, como traças, incêndios, mofo, chuva ou mudanças de casa, agora existe essa figura mais “metafísica”, constantemente invisível para a maioria dos usuários: a empresa onde tudo o que você já escreveu está armazenado.
Novamente os vestígios digitais retornam para a conversa: nada que é lançado na rede deixa de existir na rede, por maior que seja o esforço de apagá-la. (Um microspoiler sem contexto do livro Um Conto para Ser Tempo de Ruth Ozeki: talvez a fantasia toda desse realismo mágico esteja em haver uma máquina que pode fazer isso? Apagar para sempre algo da rede? Bem capaz.) Assim, minha preocupação de “e se formos apagados para sempre de todos os backups?” parece boba, sem sentido. Mas acho que vai além.
Não se trata apenas de sermos apagados de redes sociais, de nossas fotos se tornarem meros memes despersonalizados ou nossos textos se tornarem uma copypasta de autor desconhecido. Não, acho que meu pensamento está muito focado em o que vai restar de nossos escritos que seja reconhecido como nosso e por pessoas que nos importam? Parentes ou amigos, não importa, mas quem vai estar lá para nos achar?
Talvez dependamos de desconhecidos e a Wayback Machine pode até estar ali para garantir que esse conteúdo não se perca — em tese, pois meu humilde Bear Blog não é indexado na web, então duvido muito que ela vá salvá-lo —, mas como vão achá-lo? E se acabarem por achá-lo, vão se importar com o que tudo aquilo quer dizer?
Bem, talvez eu tenha finalmente entendido o cerne do meu receio. Não é que eu tenha medo de ser apagado, mas sim que tenho medo de ser perdido. De me tornar um conjunto de caracteres binários sem personalidade ou individualidade, reduzido a esse formato para (em tese) me proteger da ganância dos milionários, mas que, por outro lado, justamente por ser intangível, vai me tornar também etéreo como um sonho, inacessível depois que nada da minha carne restar sobre essa terra numa vida cuja solidez se assemelha à vapor.
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