QUEIMADO
Tudo aqui é verdade, exceto o que é inventado.
A coruja no topo do poste me observa com olhos que poderiam ser obsidianas, mas não passam de buracos. A voz no meu ombro me diz "já terminou?" em 3 tons diferentes. Estou no ônibus, depois não estou mais. Subo a passarela, desço no inferno. Eu não existo, mas ainda preciso viver. Estou o tempo inteiro sentindo presenças; a psiquiatra me prescreve um novo medicamento, a psicóloga questiona a sanidade da situação e a coruja fica calada. (Certa ela.)
Todos os relógios estão parados, então devo comprar o meu próprio, mas o tempo nunca é pra mim. Meu rosto é indiferente, minha voz sorri pois é o que manda a cartilha — eu conto os segundos pra me desligar, pra guardar de volta essa personalidade numa caixa de sapato bem distante dos meus olhos, pelo menos até ter de plugá-la de novo no dia seguinte. No ônibus somos só eu, o motorista e as vozes repetidamente me perguntando "já terminou? E agora, terminou? As KPIs..." O relógio mantém seus ponteiros, porém não vejo o tempo. Ele bem que podia só chegar ao fim de uma vez.
A comida tem gosto de quente, a água desce com gosto de faringite. Ainda tenho 5 minutos pra ir ao banheiro, mas por que me importaria com dentes? Eles só servem pra me dar bruxismo. Acesso negado, negado, NEGADO. Tem certeza que é seu dia de vir? Você é da hierarquia de quem? Por hoje você precisa de um supervisor pra entrar e sair. Você está bem? Pra quê a demora? Boa noite, vamos ver se você pode me ajudar. Falei com um colega seu e nada se resolve. Sua empresa é uma porcaria e você também, devia se demitir logo.
Os segundos se movem em velocidade reduzida e eu penso que se esse fogo em mim pudesse queimar o teto, demolir as vigas, estourar as máquinas e apagar tudo, então aí sim meus dentes serviriam pra alguma coisa e eu seria feliz.
No dia seguinte alguém morreu. Morte automatada, bateu no chão e não quicou, virou estatística no relatório do SESMET, mais um post genérico pra Setembro Amarelo. As medidas tomadas foram cuidadosamente pensadas, um curso foi adicionado no perfil dos colaboradores, uma palestra marcada e uma pausa de 15 minutos para meditação mindfulness, assim teremos tempo de lembrar de tudo aquilo pelo qual somos gratos. No final um e-mail resume "por favor, não se matem no trabalho, isso é deselegante, grata a gestão."
As horas passam, os dias voam e eu me arrasto. Já terminou? Parece que nunca termina, sendo sincero. Tô falando do atendimento, por que não terminou? Porque o cliente precisa de ajuda. Você precisa de ajuda? Não, preciso que parem de me interromper, só assim vou terminar. E mais tarde: você não seguiu o script do atendimento, precisa seguir todas as etapas. Era a décima ligação desse cliente, você não se importa que ele perceba que somos todos robôs? Não é pelo cliente, é a norma da empresa. Pode mandar fechar essa birosca então, as normas são burras, as orientações são becos sem saída. Pra onde você vai? Pra onde meu atestado me garantir paz.
O ônibus sacoleja pra cima e pra baixo, as vozes quicando uma a uma pelo corredor. Eu chego em casa e limpo a fuligem do fogão até minhas unhas ficarem pretas. É meia-noite e meia e só consigo sentir os dentes na minha boca, me perguntando se a coruja também passa por isso.
No dia seguinte o atestado traz pra caixa de entrada uma mensagem cheia de dedos, toda solícita. Eu passo 16 horas deitado na cama sem conseguir tirar de debaixo das unhas o negrume do fogão. Me perguntam se eu quero comer, mas eu quero mesmo é parar de falhar. Conselhos chegam de todos os cantos, uma preocupação latente que nem as minhas gengivas, será que aumentar o remédio resolve? A prescrição é curta demais, devia ser válida até a próxima revolução.
Água cai no meu rosto e eu percebo que essa é a chuva, fazendo carinho nas minhas queimaduras. Abro os braços e estiro a língua, o gotejar na calçada silenciando as notificações e sininhos que não dobram por ninguém. A coruja em cima do poste repete meu gesto e, enfim, alça voo.
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