quanto menos fico por aqui, menos quero ficar
Nos últimos dias estava me sentindo muito mal, sobrecarregado. Devo ter visto uns 10 vídeos flutuando entre "faça o que tem de fazer, mesmo sem vontade" e "recarregue suas energias após um burnout". No meio disso, obviamente, muitos vídeos sobre autismo - a maioria um tanto inúteis pra mim, exceto por esse aqui:
Particularmente adoro esse canal porque o educador (Chris) às vezes parece transcrever exatamente os meus pensamentos e o que pode ser interessante para lidar com eles. Talvez não funcione pra todo mundo, mas comigo é bem efetivo mesmo.
Um dos apontamentos que ele faz nesse vídeo é como lidar com os estímulos e aprender a reconhecer seus níveis de energia, além de te incentivar a encontrar formas de se recarregar. No meio disso, eu percebo: ficar o tempo inteiro na frente do notebook está me matando e talvez nem seja exagero colocar dessa forma. Eu me sinto desgastado, sem vontade de fazer nada, sendo que às vezes só estou sentado aqui passando de uma página a outra, rolando o feed do Bluesky, respondendo mensagens no Whatsapp web - nada que realmente me tire do lugar, apenas drena minha energia.
Até tenho as desculpas ideais se quisesse dizer a mim mesmo que de toda forma preciso ficar no notebook: afinal, sem celular desde Janeiro desse ano, é nesse dispositivo que executo meu trabalho, escrevo, falo com clientes e amigos, assisto filmes ou jogo para me distrair. Como não passar o dia inteiro nele? A resposta é meio óbvia, mas não simples de se aplicar: pensar de forma consciente na forma como estou usando meu tempo online.
Ok, então como fazer isso? Quando cronogramas com dias da semana e horários simplesmente não funcionam para a minha pessoa, de que forma é possível cuidar de que o estar online seja apenas para o estritamente essencial?
Não fazia ideia de que tipo de intervenção aplicar, então resolvi apelar para o radical: ficar o mínimo de tempo possível na frente dessa tela, o que pode ser equivalente a duas horas por dia ou menos ainda. Para isso o esquema é básico: confiro emails, respondo pessoas, interajo nas redes sociais e vou mexer em um ou outro trabalho. Trabalho terminado e agora eu ia ficar lendo aleatoriedades? Então esse é o momento de largar o notebook e existir de outras formas. Minhas atividades principais costumam ser a limpeza da casa e a leitura. E com isso percebi que não sinto falta de estar aqui diante dessa tela o dia todo.
Uma parte de mim até quer pensar "mas você está cheio de trabalhos atrasados, como vai fazer?", e sim, de fato, preciso entregar alguns tantos trabalhos, mas se antes eu passava o dia no notebook e ainda assim me perdia em mim mesmo, sem conseguir passar de duas páginas ao dia, de que adiantaria continuar insistindo no ciclo? Saio do notebook e vou fazer outras coisas, depois volto e vejo o tal trabalho, foco apenas nele naquele momento e aí é hora de sair de novo da frente da tela. Não fico horas e horas alternando entre: um pouco de trabalho, um pouco de escrita, volto pra rede social, leio algum texto aleatório, assisto um dos 200 e poucos vídeos no watch later do youtube e assim se passam 8, 10 horas na frente de uma máquina que tem a sua relevância para minha vida, sim, mas que não pode monopolizar a minha existência pois simplesmente rouba o meu tempo de vida e se eu vou só viver por um nada, então qual o sentido de viver?
Recentemente numa newsletter de que gosto muito, Thought Couture, a autora mencionou essa nota no Substack, que diz:
Deve existir algo que é o oposto do suicídio, no qual uma pessoa decide radical e abruptamente começar a viver ou resgatar sua vida da destruição/obscuridade.
Quero acreditar que estou rumando para esse oposto, principalmente por ser alguém que passou tantos e tantos anos pensando em suicídio e que já fez tentativas algumas vezes. Isso não quer dizer que atualmente estou sempre feliz, nem que necessariamente buscar estar feliz (o tempo todo), mas sim que quero tornar a minha vida melhor, algo que por muito tempo ignorei pois "qual a importância dessa merda?"
Várias vezes até penso em vir para o notebook e escrever nesse blog, pois é um lugar que genuinamente me faz sentir feliz, mas só de me imaginar sendo sugado de volta para esse loop descontrolado de estímulos e informações, prefiro ficar quietinho e decidir com muito cuidado (e intencionalidade) de que forma vou depositar meu tempo diante do notebook.
Sei lá, uma experiência meio "lan house de mim mesmo", as fichas estão contadas e eu devo ser sábio ao usá-las para não gastar meu tempo com o que não faz a menor diferença pra mim. Se o notebook é pra trabalho, então que eu trabalhe ao invés de só ficar me dopando de conteúdo rápido, destruindo meu foco e drenando minhas energias.
Enquanto escrevo esse texto (que provavelmente não vou publicar no mesmo dia, pois requer revisão, reescrita etc em outros momentos para que eu não fique o tempo inteiro em cima dele, por horas seguidas1), estou finalizando dois livros que peguei na biblioteca:
- Pássaros feridos, uma saga familiar australiana de Colleen McCullough, publicado em 1977
- O Quinze, um romance escrito por Rachel de Queiroz sobre a seca no Ceará, publicado em 1930 - com uma edição de 1970, onde palavras como "ele" e "seca" eram grafadas como "êle" e "sêca"2
Tenho propositadamente escolhido ler livros antigos, de antes de todo o movimento acelerado da globalização, smartphones, IOT e IOE3, enfim, toda a nossa tecnologia futurística "à la skate voador do Martin McFly"4 pois acredito que isso também me ajuda a desacerelar meu próprio ritmo, me voltar a me fixar na vida na Terra, olhar pra dentro da minha casa, para as pessoas que estão ao meu lado.
Não vou vir com papo de largue suas coisas, vá viver como Na Natureza Selvagem!!!, apesar de admitir que já pensei nisso mais de uma vez ao longo da minha vida - especialmente dos 20 aos 25 anos. De toda forma, acredito que desacerelar é preciso, ainda mais se você deseja de fato viver a sua vida, aproveitar sua família, perceber as miudezas adoráveis no mundo que por vezes desaparecem no meio das tragédias e desgraças titânicas que ocupam boa parte das notícias e perfis.
Eu quero viver a minha vida como ela é, simples, mediana e por vezes tediosa, mas que também é tranquila, agradável e confiável, e não consigo fazer isso sendo um cronicamente online que está o tempo inteiro urubuzando a treta da vez. Então é isso, essa está sendo a minha escolha.
Espero que para você que me lê, as suas escolhas também façam sentido. =)
Notas:
No final eu publiquei no mesmo dia! Quem diria que quando você escreve a primeira versão, dá um tempo e depois volta pra ela, fica bem mais fácil de rever o que você queria dizer anteriormente e reescrevê-lo melhor. /ironia↩
É só uma observação engraçada que eu queria compartilhar. Adoro ler edições antigas porque apesar do leve pinote que isso dá no cérebro, ver as mudanças na língua escrita me fascinam.↩
Respectivamente acrônimos para as expressões Internet of Things e Internet of Everything, que não vou me esmiuçar explicando aqui, mas quem sabe um dia eu não faça um post específico a respeito, já que é um tema que muito me interessa.↩
Ou nem tão futurísticas assim, dependendo da ideia a galera é meio medíocre, meio vilão mediano do Homem de Ferro, sei lá. Os vilões do Homem-Aranha eram mais interessantes e genuínos, eu acho.↩