proibido envelhecer
Acho que foi logo na primeira vez em que fiquei escavando o r/RomanceBooks que me deparei com uma reclamação “curiosa”: personagens de livros contemporâneos que não tinham as “referências adequadas para sua idade”, o que quebraria a imersão do livro.
Fiquei pensativo, pois uma parte desse “problema” é causada por uma demanda de escrever personagens de uma determinada faixa etária (entre 20 e 30 anos, geralmente) e que estejam vivendo no cenário “o mais atual possível”, mesmo que um ano em específico nunca seja citado na narrativa.
O resultado são autorias de 40, 50 anos ou até mais velhas, escrevendo jovens de 25 anos em 2025 usando as referências de quando elas tinham 25 anos, levando a esse “descompasso” com as expectativas dos leitores do que seria o “comportamento adequado” para uma pessoa da idade dos personagens.
Particularmente, essa sempre me pareceu uma reclamação meio boba, mas cada um com seus pet peeves*.
Julguei durante muito tempo que essa situação em específico (tentar fazer um livro parecer “atemporal” e ao mesmo tempo “contemporâneo o suficiente para simular os dias de hoje”) era fruto de um contexto em que o cenário histórico-político-social costuma ser desprezado/ignorado/”neutro”, como se não fizesse a menor diferença para a narrativa. Por conta disso, parecia algo muito associável com livros de romance contemp da atualidade — de 2018 pra cá, mais especificamente.
Eu já devia saber que generalizações desse tipo não são muito inteligentes, mas ainda assim tive que tomar uma lapada: uma das minhas autoras favoritas, Karin Slaughter, aparentemente faz a mesma coisa e ela escreve thriller procedural, não romances contemporâneos. Descobri isso uns anos atrás, quando estava lendo o primeiro livro de sua série Grant County e no final Slaughter falava a respeito de algumas edições que fez para tornar a série mais “moderna”, como trocar determinados dispositivos em cena ou marcas de carros.
Grant County começou a ser publicada em 2001 e se estendeu até 2007, seguida da série Will Trent (que se iniciou em 2006, como se fosse uma série à parte), na qual alguns personagens de GC também aparecem a partir do terceiro livro de WT. Até consigo entender que a ideia de Slaughter é manter uma sensação de que apenas meses ou semanas se passaram entre determinadas histórias, pois a discrepância entre o tempo da história versus o tempo que levamos para escrevê-la e publicá-la pode ser muito longa, mas… qual seria o problema em situar a história na cronologia “real” ao invés de fingir que estamos num período mais recente?
Se em GC, por exemplo, a história começa em 2000 e se passaram 4 anos (é uma estimativa, não tenho certeza) até a conclusão, então estamos em 2004 no último livro. Do primeiro ao terceiro livro de WT temos mais dois anos (outra estimativa grosseira, só a guisa de exemplo), então chegamos em 2006. Uma diferença de apenas 3 anos no espaço-tempo da série, já que Undone (WT #3) foi publicado em 2009.
Mesmo que não necessariamente haja um gap muito grande entre 2006 e 2009, ainda é muito difícil situar se esse é de fato o ano em questão e eu fico encucado me questionando por quê? (Talvez esse seja o meu pet peeve, ser meio doido com a representação do tempo em histórias ficcionais contemporâneas? /gen)
Talvez seja mais uma questão de facilidade para a autoria manobrar a passagem de tempo e ter liberdade de ignorar determinados eventos/situações (alô, covid?), ainda mais por se tratar de uma série, mas ainda me parece um pouco forçado. Nada impede a pessoa de tratar aquilo como uma realidade alternativa em que X evento nunca aconteceu, por exemplo, e acho que isso é talvez mais sincero do que tentar tornar o período histórico-social da narrativa algo meio amorfo, meio embaçado.
Vira e mexe eu volto pra esse assunto, por menor e desimportante que seja. No que isso afeta minha vida? (Acho que só afeta minha vida como autor, no meu próprio trabalho, o que é um problema exclusivamente meu e de mais ninguém.) Vou parar de ler livros de romance ou da Karin Slaughter por isso? (Não e não.) Pra que ficar perdendo tempo questionando o tempo nas histórias? (Bom… por que eu acho divertido ruminações “inúteis”, pelo visto.)
Geralmente deixo os pensamentos rodando e rodando em segundo plano, até que eles somem da minha cabeça ou quedam adormecidos por um tempo. O gatilho para despertá-los dessa vez foi uma música de Hozier, que vira e mexe boto pra tocar aqui em casa, Nobody’s Soldier:
I don't wanna choose between being a salesman or a soldier / Just let me look a little older / Let me step a little bolder
Traduzindo grosseiramente, seria algo como:
Eu não quero escolher entre ser um vendedor ou um soldado / Só me deixe parecer um pouco mais velho / Deixe-me agir de forma um pouco mais ousada
Geralmente sou atraído pela última linha desse verso, a que fala sobre ousadia, mas esse me deixe parecer um pouco mais velho me fisgou também dessa vez pois é uma declaração até bem direta: numa sociedade onde te vendem mil e um procedimentos estéticos, produtos que rejuvenescem 5, 10, 20 anos, onde os velhos são tratados como humanos obsoletos, o medo de envelhecer e de transparecer esse envelhecimento é bem compreensível.
Uma piada recorrente em obras de comédia mais recente são nomear que boa parte das decisões na sociedade Ocidental são tomadas por “velhos brancos ricos”, mas nem de longe a idade é fator determinante de poder como ser branco, rico ou cis-hetero-endossexual. No máximo, a percepção do tempo disponibilizado a esses homens é uma reafirmação de como esse conjunto de características os blinda de se tornarem alvos da violência de um mundo que exige experiência em estágios, mas despreza corpos e mentes que já não têm mais o mesmo vigor e afinação da juventude.
Partindo, então, do princípio de que muitas pessoas estão sempre atrás da juventude/vigor na ficção, não me surpreende que as obras que se passam no “passado” (2010 foi 16 anos atrás, isso já é considerado passado-Passado ou só-meio-passado? Se já tem gente nostálgica por aquela época, está valendo?) sejam por vezes um nicho mais específico, romances históricos ou de época.
Alguém poderia argumentar que os problemas do leitor atual não seriam contemplados por representações de anos anteriores em dados contextos, como o crescimento da presença de redes sociais e mensageiros de 15 anos pra cá. É justo, mas ninguém está proibido de compor histórias que se passam na AtualidadeTM e tenha personagens mais velhos, personagens que representem outra geração, talvez mais próxima das autorias que acabam limitadas a representar uma população que vai da adolescência aos 30 e poucos anos, se muito, por motivos que vão desde essas questões culturais até ao mercado (e que, no final, também é influenciado por questões culturais).
Enfim, esse texto não objetiva chegar a nenhuma conclusão, é só um monte de pensamentos que me passaram pela cabeça e achei que poderia ser interassante registrar.
Estou tentando escrever textos mais concisos, mais próximos de uma semente do que de uma árvore. Quem sabe alguma coisa não germina depois de escrevê-lo e depois eu retorno, com novas ideias e pensamentos a respeito da questão?
Nota:
Pet peeve é um jeito de se referir a uma coisa simples/básica e que mesmo assim é um incômodo absurdo pra pessoa. Meio que um jeito de falar “chatice besta”.
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