meu autismo (me) mudou?
vira e mexe converso com amigos ND1 que comentam: "antigamente eu era menos sensibilizado para certas coisas. hoje em dia faço coisa x e preciso de dias, horas ou até semanas pra me recuperar do esforço!"
isso me deixou bem pensativo quanto à minha própria relação com essas coisas: meu corpo, minha cabeça e meu autismo (parece tudo a mesma coisa, mas não vejo assim). desde que fui diagnosticado, 3 anos atrás, minha pesquisa sobre autismo se intensificou e, além de aprender sobre como o espectro pode se manifestar em outras pessoas, também entendi melhor esse meu lado que ficou negligenciado por tantos anos. conhecer o outro melhor é ter outra visão de mim mesmo, eu acho.
um exemplo de relato frequente é o seguinte: a pessoa interagiu com gente por algumas horas e acabou com uma sobrecarga sensorial elevada. os sintomas costumam girar em torno de cansaço extremo, dificuldade para raciocinar, dor de cabeça, zumbido nos ouvidos, enjoo, incapacidade de seguir com a rotina como de costume... junto dessas queixas, vem o comentário: "10, 15 ou até 20 anos atrás eu tiraria essa situação de letra." mas será?
parei para rememorar situações sociais que vivi na adolescência (um período do qual me lembro bem mais) e infância (período que é praticamente um apagão, em muitos aspectos). na adolescência, após interações indesejadas com muita gente, a reação principal era apatia, seguida bem de perto da raiva, mas não qualquer tipo de raiva e sim um tipo pegajoso de raiva, que não me largava, não importava o quanto eu quisesse ficar distante dele.
situações sociais me deixavam inquieto e agitado (não por estar animado ou empolgado, mas sim por entrar em estado de alerta), com dificuldade de me concentrar e de entender o que me falavam, o que levava a um sentimento de desconforto e deslocamento em relação ao ambiente. não me surpreende que muitos autistas que conseguem iniciar algum tipo de tratamento de saúde mental comecem recebendo um diagnóstico de TAG2, já que a sintomática é bem parecida.
após o evento, eu tendia a querer me isolar, ficava mal-humorado e já cheguei a passar de 4 a 6 horas andando de um lado pro outro em casa, ouvindo música até meus ouvidos doerem - parece loucura, mas até os meus 24-25 anos, andar de um lado pro outro era a minha maneira de me regular. não caminhar, veja bem, mas sim andar de um lado pro outro que nem aqueles personagens de desenho animado antigos. pois é. uma vez durante a pandemia o google health no celular indicou que eu tinha caminhado mais de 2km naquela tarde... dentro de um apartamento de 45m². enfim.
na infância, o resultado para o excesso de estímulos das interações sociais era mais "pra fora": choro com lágrimas, falta de ar, queda de pressão, vontade de dar de encontro com as paredes. para muitas pessoas - especialmente minha família - eu era uma criança birrenta, rabugenta, "super sensível". num geral, eu era "comportado e quietinho" (o famoso combo "e foi assim que parei na terapia!"), então esses "lapsos" que eu tinha eram perdoados em forma de ignorância, por mais que alguns fossem severamente rechaçados, dependendo do momento.
uma breve intermezzo nesse assunto:
recentemente vi um youtuber focado em autismo dizendo que a
"biologia dos autistas diagnosticados na idade adulta é diferente da biologia dos autistas diagnosticados na infância".
juro que tentei entender o que caralhos essa frase quer dizer, mas não consegui. sempre que penso na minha infância e nas reações da minha família, na forma como me tratavam, eu tenho certeza de que não fui diagnosticado ainda na infância pois
- provavelmente minha família toda (ou boa parte dela) também era autista e, portanto, meu comportamento geral era visto como "padrão" e
- porque diagnósticos desse tipo não eram amplamente divulgados nos anos 2000.
também tenho certeza de que a maioria das pessoas só sabia o que era um autista por causa do filme do dustin hoffman, cara!3
biologia diferente é o meu pau na sua zoreia, rapá!
obrigado pela atenção, fim do intermezzo~
mais uma situação que "era tankável e depois não foi mais", essa que não foi vivida por mim, mas relatada por outros autistas: entre a adolescência e a idade adulta, festas e outras formas de socialização só eram suportáveis mediante o alto consumo de álcool. ver um relato assim não me causa surpresa quando sabemos que autistas são mais propensos a serem alcoólatras.4
quando olho para minha trajetória de vida, me questiono se foi meu autismo que ficou mais "agudo" ou se, na verdade, pela falta de reconhecimento dos adultos ao meu redor (e o meu próprio), os sinais anteriores dele não foram notados. não descarto, claro, o fato de que um burnout autista pode e vai ampliar determinadas sensibilidades e reações, mas me parece simplista demais dizer apenas "meu autismo 'piorou'".
da mesma forma que hoje vejo sinais de crises na minha adolescência e infância, noto que eu tinha as minhas formas de me regular. para os outros, esses gestos eram "feios", "descontrolados" e "constrangedores", e eu deveria "tomar vergonha na cara" e não fazê-los.
sem entender que as coisas "erradas" que eu fazia eram o que me impedia de viver crises mais sérias e profundas, fui me tolhendo, mascarando os sinais "esquisitos" do autismo. no final é foda, pois ao querer cortar todas as atitudes "socialmente incômodas", eu garanti o conforto dos outros, mas destruí as minhas chances de me manter em paz, regulado. (pra depois ouvir das mesmas pessoas que me mandaram me "controlar" que mas como assim 'autista'? você nunca deu sinal nenhum de autismo!)
acredito também que o fato de agora prestar muito mais atenção em mim mesmo faça parecer que estou "sempre" tendo de administrar potenciais crises quando, na verdade, antigamente eu só as vivia e pronto. não havia uma racionalização por detrás das crises, não me passava pela cabeça tentar entender o que me levava a querer me mutilar ou até a cometer suicídio. era "meu jeitinho". /ironia
não é difícil entender porque dizem que a ignorância é uma bênção, mas sinto que ser mais consciente dos meus limites e necessidades me faz ter uma vida melhor, com mais qualidade. eu não posso ter 100% de controle sobre tudo, mas o fato de ser capaz de lidar com a forma que os resultados das coisas me afetam com certeza me deixa mais feliz e tranquilo, e contribui para que eu me mantenha estável (e a medicação que tomo, também).
enfim, esse é só um de muitos textos que quero fazer sobre minha experiência percebendo como o autismo sempre se fez presente, mas eu não sabia identificá-lo e menos ainda lidar com ele. fico muito feliz quando vejo outras pessoas e amigos compartilhando suas vivências com a deficiência, e espero que esses textos também possam ajudar, em algum nível, qualquer um que tendo recebido ou não um diagnóstico oficial, sente dificuldade de lidar com seu próprio funcionamento.
é complicado, de fato, ainda mais quando o mundo, não se contentando em ser acessível e/ou acolhedor, prefere mandar a gente ir se matar ou algo assim, mas, apesar de tudo, ainda tem esperança de que as coisas mudem pra melhor e a principal forma de isso rolar é com mais autoconhecimento.
então let's que let's, galera.
Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!
Notas de rodapé
ND é um jeito de falar Neurodivergente (ou neurodivertido)↩
TAG, Transtorno de Ansiedade Generalizada. Imagino que, infelizmente, hoje em dia muita gente saiba o que essa sigla significa, mas para quem não sabe, fica aí a informação.↩
Rain Man (1988), com Dustin Hoffman e Tom Cruise é basicamente um pornô de inspiração onde o personagem autista "savant" vivido por Hoffman mostra pro irmão (Tom Cruise) como a vida pode ser diferente e blablabla. Muita gente criou uma associação de autismo = deficiência intelectual por conta dessa história, já que o roteiro não faz muita questão de deixar explícito que o personagem tem ambas as deficiências, colocando como se tudo fosse autismo.↩