hoje comi marrom-glacê (pensando em você)
aviso
o texto a seguir fala sobre a perda de um ente querido e o luto subsequente a isso.
não me lembro de já ter escrito pra você depois que você se foi, então vou considerar que essa é minha primeira carta. engraçado pois passei muito tempo escrevendo para o futuro - para o eu mesmo de x anos à frente, para uma filha que só existia na minha imaginação - e agora escrevo, de certa forma, para o passado, pois é o único lugar onde posso te alcançar agora.
incrível como minha memória é boa para algumas coisas e totalmente falha para outras. não me lembro, por exemplo, de ter chorado quando você faleceu, apesar de ter chorado, sim, quando estava na faculdade e mencionei você durante uma aula que citava a memória dos textos. divida a cena em dois pedaços e você vai me ver ali, um espelho refletindo dois tempos: de um lado, um garoto que ia fazer 18 anos dali um mês, na frente da escola com os amigos, o celular na mão enquanto ouvia a mãe dizendo que a pessoa que ele mais amava tinha ido embora e ele não estava lá, mas os olhos? os olhos secos, o peito vazio. do outro lado, esse mesmo garoto já era um homem, mas chorava como um menino, as lágrimas fluindo aos montes, ignorantes ao bom-senso de que não se deve chorar em público e caramba, a plateia não sabia mesmo o que fazer, não é?
eu não lembro do que falei pra minha mãe naquela manhã, não parece importante, apesar de que sim, era sim: afinal, ela também tinha perdido a pessoa mais preciosa pra ela. dá pra entender porque ela me julgava frio. mas o eu na sala de aula? esse se lembra muito. eu disse pra todos aqueles estranhos: ela morreu, mas antes de morrer, ela me perguntava "quem é você? eu não sei quem você é, sai daqui!", enquanto olhava pro meu irmão 9 anos mais novo e se recordava de tudo o que havia para recordar a respeito dele. então, a realidade é que eu morri pra ela muito antes de ela morrer pra mim. eu fui um fantasma. eu ainda me sinto um fantasma.
eu não queria chorar toda vez que penso em você, mas parece inevitável, sabe? eu sempre quis morrer, mas ser morto dessa forma não acabou com a dor, só a transformou numa coisa que eu preciso carregar comigo enquanto assombro os vivos. te amei tanto e você me amaldiçoou dessa forma... o que eu te fiz?
sempre que escuto "gostava tanto de você" do tim maia eu me lembro de você. me escondo pra ninguém ver, mas sempre choro como se você tivesse sido arrancada de mim naquela hora mesmo, como se eu estivesse tendo de arrastar um membro ausente, pingando sangue, e ninguém pudesse ver. acho graça disso, de chorar por causa de uma música de um pai que perdeu a filha por me identificar com o sentimento, pois você era quase 70 anos mais velha que eu. todo mundo esperava que você fosse embora antes de mim, mas não é justo me julgarem.
"você marcou a minha vida / viveu e morreu na minha história", essa é a dimensão da nossa vida juntos. desde o momento em que eu fui eu, você já estava lá. eu cresci e passei por todas as partes mais importantes da minha vida com você ao meu lado. eu cheguei ao fim da sua vida, mas você esteve comigo desde o primeiro segundo e depois não estava mais e as pessoas viram pra mim e falam pra eu superar porque você era velha e é isso o que as pessoas velhas fazem, elas morrem.
não é justo.
eu não esperava que você fosse imortal, mas não entendo as pessoas, nunca entendi. não entendo como pode ser tão difícil de entender que se você arranca parte de alguém, talvez essa pessoa ainda siga a vida, mas sempre vai levar a mão até o ponto faltante e pensar que queria que ele estivesse ali, que faz falta. eu vivi a minha vida toda podendo ver as estrelas acima da minha cabeça, até que um dia acordei pela manhã e descobri que elas nunca mais seriam visíveis, que íamos viver em constante tempestade e essa seria a nova vida, e tudo bem se eu ficasse triste por umas semanas, mas meses ou anos? aí não né. supere. cresça.
eu preciso aceitar que o céu que esteve lá desde sempre agora não está mais e me pego pensando que daqui 6 anos vou ter vivido metade da minha vida assim. não faz sentido. eu gosto de números, então aqui vai mais um: quando eu tiver a idade da minha mãe hoje, 53 anos, vão fazer 35 anos desde que as estrelas se foram do meu mundo. se eu viver o suficiente, vai chegar o dia em que você terá feito parte de uma pequena porção do que vivi; em que eu talvez te esqueça como você me esqueceu.
nada disso parece certo. não sei se escrever essa carta é minha forma de lidar com o luto - alguém lida com o luto, sinceramente? por vezes parece que ele é só um cara que de repente aparece na sua sala, senta no sofá e no começo é um incômodo do qual você quer se livrar, mas depois vira alguém com quem você se acostuma, até que ele cansa e vai embora, mas dá às caras de vez em quando, meio insensível ao que sua presença ou ausência causa na energia do cômodo.
não sei se essas tantas palavras são minha forma de dizer "sinto sua falta" porque dizer isso até faz sentido, mas parece simples demais e nada é simples com esse vazio. lembro de uma cena que vi um tempo atrás numa série: o protagonista ia falando com vários personagens em momentos distintos e perguntava o que eles fariam se tivessem uma máquina do tempo. cada um responde uma coisa, de acordo com suas personalidades - um policial, um advogado - até que chega o último - um químico - e responde que a pergunta não fazia sentido, pois máquinas do tempo não existem, são uma improbabilidade física ou algo assim. a pergunta, no final, era sobre arrependimento, disse o químico. o que você quer perguntar é do que eu me arrependo.
vai ver é isso, eu me arrependo. penso nas coisas que poderiam ter sido diferentes se eu fosse mais como eu sou hoje e menos como eu era naquela época. odeio que o químico esteja tão certo, que eu não possa tecer esse tapete de palavras e viajar até você. a verdade é que o tapete vai ficar aqui debaixo dos meus pés e eu vou ficar aqui olhando pra eles como um idiota, pois você está morta e não tem mais estrelas no céu pra mim, então de que adianta essa bosta toda?
acho que o que mais me frustra é saber que nesses 17 anos e 11 meses em que estivemos juntos você teve apenas a minha pior versão, cara. eu estava sempre tão assustado, tão autocentrado, tão perdido - eu podia ter sido tão melhor. eu devia ter cuidado melhor de você. eu devia ter brigado por você, devia ter te defendido, mas fui um bananão. fui obediente, fui caladinho. você sempre lutou por mim, sempre me defendeu - com muita classe, você metia medo em todo mundo, até em mim mesmo às vezes. se eu pudesse entrar na porra da máquina do tempo e voltar pra qualquer ponto, eu teria mordido a garganta daquele arrombado gritando com você e só largaria dele quando a polícia me levantasse. desculpa, eu não sabia ser elegante e me impor, mas a violência? essa eu tinha em mim, mas segurava do jeito que dava. (covarde)
é, acho que foi melhor você ter esquecido de mim. quem quer saber de um sem futuro desse? quero me enganar dizendo que eu teria sido bem melhor agora pra você, que gostaria de mostrar as tantas coisas que mudei ao longo desse tempo que passamos longe, mas será? não sei. de toda forma, as coisas são o que são: eu estou aqui, você aí, e só podemos ser um para o outro aquilo que fomos, nada mais. a máquina não existe, as estrelas se apagaram e agora eu choro olhando uma lata de marrom-glacê porque esse era o nosso doce preferido, lembra?
eu lembro de tanta coisa que a gente passou junto. acho que você foi minha melhor amiga e eu só percebi agora. desculpe ter sido tão pequeno que me apaguei de você. eu realmente te amei muito, só queria que você soubesse.
enfim, desculpe te incomodar depois de todo esse tempo. se puder, me responde? sinto demais a tua falta, bisa.
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