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fratricídio de ange dourado (conto)

Um breve disclaimer: em outras postagens sobre minhas leituras eu acabei adicionando uma tag de resenha/comentário/análise no título da postagem. Vou parar de fazer isso porque perco muito tempo tentando definir o que seria uma resenha, o que seria uma análise mais crítica etc. Não tenho tudo isso de neurônio pra gastar.


sobre fratricídio de ange dourado

Meu conhecimento sobre o cristianismo é bem incipiente e limitado — já pensei em me educar mais por conta do tanto de referências em obras que me interesso, como paraíso perdido (1667) de john milton, que é praticamente uma “fanfic” sobre a queda de Lúcifer perante Deus ou a série de terror folk midnight mass (2021), que traz uma reinterpretação (nada ortodoxa) dos episódios milagrosos de Jesus Cristo.

Dito isso, mesmo com essas lacunas de entendimento, tenho uma atração até que bem expressiva por obras que referenciem o cristianismo e suas metáforas como todo bom queer ocidental, então evidentemente que o novo conto de Ange Dourado, fratricídio (2026) me chamaria atenção.

O centro do conto está na “Primeira das Histórias” — pela perspectiva ocidental e cristã —, a morte de Abel pelas mãos de seu irmão Caim, o que teria resultado, segundo Fratricídio, na criação do primeiro vampiro. Não é a primeira vez que vejo Caim sendo associado ao vampirismo, mas pra mim o que se destacou no conto de Dourado foi a (re)interpretação de passagens bíblicas que nos levam a tomar como natural que, sim, o Deus do Velho Testamento bem seria capaz de criar o vampirismo como uma punição a alguém. Afinal, se tudo aquilo que existe sobre a Terra é uma obra Dele, por que os monstros não o seriam também?

Quanto mais racionalizo com meu (parco) conhecimento bíblico, mais me parece fazer sentido e até traçar um paralelo interessante: se Eva e Adão pecaram ao comer do fruto da árvore do conhecimento do bem & do mal e por isso deixaram de ser “criaturas singelas” e sem "maldade", como eram todos os outros animais criados por Deus, para se tornarem uma categoria separada da Criação, que tem consciência e vergonha (é errado entender que eles teriam se tornado pessoas nesse momento?), então por que o próximo passo da punição divina não seria estirpar dessa categoria o indivíduo a ser punido?

Seguindo essa linha, Caim deixa de ser uma pessoa e passa a ser um monstro, pois essa seria a pena mais adequada a um assassino, em especial o assassino de um servo do Senhor, a perfeita descrição de seu irmão Abel, o pastor.

Também me é interessante reparar que Abel era um pastor, alguém que cuidava da obra do Senhor, enquanto Caim era um agricultor, alguém que tentava extrair da Criação a partir da sua própria. Não sei se na Bíblia originalmente existe alguma simbologia a partir desses papéis — aqueles que meramente “preservam” a obra do senhor ao invés de tentar “recriá-la” seriam mais bem-quistos? ^[1] — ou se trata-se apenas de uma convenção porque eram duas funções comuns na época de sua confecção como livro, mas de toda forma é curioso, em especial ao pensar que Caim, ao se tornar vampiro, de certa maneira ainda poderia ser visto como um tipo de agricultor, mas um que cultivasse monstros derivados de si.

Deixo um pouco mais de lado as minhas interpretações e agora parto para o cerne do conto assim como sua estrutura e forma. Fratricídio cumpre bem a sua proposta: da mesma forma que o episódio original de Caim e Abel vem justificar a expansão da população humana por outros territórios e a inserção da violência nesse mundo externo ao Paraíso, a história de Dourado apresenta o nascimento do vampirismo como algo oriundo do divino.

A obra se encerra sem maiores desenvolvimentos ou passagens de tempo, o que não é um problema em si pois nunca foi uma promessa presente no texto. Na verdade, se faço esse apontamento é meramente porque gostei muito da leitura, especialmente da sua linguagem, que se preocupa com uma estilística mais poética sem deixar de ser compreensível e apresentar, também, uma simplicidade que torna o texto fluido. Durante toda a leitura fiquei muito imerso dentro dessa construção cuidadosa, então é normal que desejasse que a obra fosse maior.

Seu pai sempre dizia que questionava demais. Mas se Caim admitia alguma culpa, era a de o decepcionar como primogênito. A alegria da mãe ao segurar a primeira criança sendo desmanchada com a pedra lascando o crânio de Abel. Doía pensar que provavelmente nunca mais os veria, mas não estava arrependido de seus atos.

Outro ponto que me fez desejar que a história se estendesse mais é que fiquei muito curioso quanto à possibilidade de se explorar mais essa proposta do Caim vampiro ou até de desenvolver as consequências referentes a esse vampirismo ser liberado como uma praga no mundo — como exatamente a maldição se espalharia? Seria a clássica mordida com ingestão de sangue ou outra maneira? Mais importante: a maldição chega a permitir a formação de alguma comunidade ou a solidão é, desde o nascimento dos vampiros, parte da condenação do indivíduo, mesmo entre seus pares? Quando a gente chega no Lestat diva pop?

Nos agradecimentos Ange Dourado menciona uma possível série de histórias vampíricas, então aguardo ansioso para ver se os lançamentos seguintes vão trazer respostas aos meus questionamentos ou até apresentar outros que não considerei aqui!

Num geral foi uma leitura que me deixou muito satisfeito pois conseguiu apresentar uma história milenar com uma ótica fantástica, mas também teve um cuidado em sua estética e forma, o que trouxe um resultado tanto interessante como envolvente.

Notas:

^[1]: Pois “(…) e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.” (Gênesis 4:4,5)


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