eu não vou ler o seu livro
Tem tanta coisa que eu queria dizer, sintetizar em poucas linhas, mas algumas me perseguem mais que outras, então aqui vai: eu não vou ler o seu livro. Não vou ler o seu livro pra te "ajudar", não vou ler seu livro pra "te dar uma chance". Não vou ler seu livro porque você me pediu. (Eu vou ler o seu livro se você me pagar como profissional pra isso, é uma das poucas vezes em que você pedir vai fazer diferença.)
Eu não vou ler o seu livro porque "o mercado é complicado e precisamos nos incentivar". Eu não vou ler o seu livro porque quero amigar com você. Eu não vou ler (nem fudendo) o seu livro porque você leu o meu - se era essa a sua expectativa, eu tenho um segredo pra te contar: você não deveria ter lido meu livro só pra ganhar alguma coisa, porque o que eu tenho a dar é exatamente aquilo que está no meu livro. Nada mais, nada menos. Troca de leitura não faz parte da experiência, a menos que isso esteja escrito expressamente como "troco leitura" e mesmo assim eu questiono a existência desse tipo de oferta.
Eu não vou ler o seu livro por obrigação, muito menos uma obrigação inventada de parecer bem com um suposto alguém analisando a minha performance e fazendo estatísticas imaginárias.
Eu leio porque eu quero. Eu leio porque uma obra me interessa, porque uma capa se destacou, porque as resenhas disseram algo que chamou minha atenção. Eu leio porque eu amo ler, porque eu amo me apaixonar pelas ideias das outras pessoas - é basicamente a mesma razão pela qual eu escrevo.
Eu leio porque o que eu quero do autor é aquilo que o livro traz: o livro em si, a história, os personagens, a prosa. Eu leio, especialmente, porque o texto me faz ficar e essa é a coisa mais difícil que um texto pode fazer, e se ele conseguiu então eu ganhei e o prêmio é o livro, entende? Ele não precisa vir acompanhado de brindes, nem de um "muito obrigado", pois eu não estou fazendo favor algum a ninguém - a autoria é que me fez um favor ao escrever uma obra que eu possa amar.
Quando escrevo isso, não é que esteja dirigindo essas palavras a alguém que tenha me pedido uma leitura ou coisa parecida, mas é um negócio que me incomoda porque já aconteceu várias e várias vezes de forma inversa: eu elogiava o livro de alguém, essa pessoa ficava feliz e dizia que ia ler o meu livro também. Mas... qual o sentido? Se eu elogio sua obra, o objetivo é só esse; não existe um contrato implícito de "eu te li, agora me leia!" e me perturba um pouco pensar que isso possa ser uma lógica que outras pessoas sigam.
Porque se você só está lendo alguém esperando algo em troca, então qual o propósito do texto? Por que você se importa? Ler alguém esperando que essa pessoa te leia de volta é a mesma coisa que entrar numa conversa, mas só ouvir o outro para determinar quando chegou a sua vez de falar, não porque você de fato queira ter a conversa.
Ler para cumprir com uma função "extra-livro" (ou sei lá como dá pra chamar isso) me parece um desrespeito com o livro e com a autoria - é a versão literária de perguntar "tudo bem?" e esperar sempre um "tudo sim" educado, morno, sem profundidade, mesmo vindo das pessoas que deveriam ter espaço para se abrir com você, para ser mais do que apenas uma superfície. Eu leio tanto justamente para ir além da superficialidade do mundo, de toda a ausência de autenticidade, dos bordões programados, das respostas ensaiadas, então não faria sentido entrar sorrindo nessa ciranda da qual estou me esforçando tanto para escapar.
Eu vou ler o seu livro quando me der na telha de ler e a única razão pela qual vou começar da primeira página e ir até a última é porque eu quis. Porque a razão de ler o livro é o livro e isso não é só suficiente como maravilhoso. Nada mais, nada menos.
Quer responder essa postagem? Fala que eu te escuto!