descreva suas imagens, caralho
foi no falecido xitter que aprendi sobre a descrição de imagens — ou, como muitas plataformas chamam, sobre as alt text, texto alternativo. as descrições basicamente sempre existiram como um atributo na tag img do HTML, pois serviam para identificar para o usuário o que seria uma imagem que não carregou. no lugar da imagem ausente, aparece uma descrição dela, assim o contexto não é perdido. já faz um bom tempo que essas descrições são também um recurso essencial para a acessibilidade de usuários que fazem uso de leitores de tela. quando o leitor de tela se depara com uma imagem, ele lê exatamente o que está na descrição alt — se não há nada para ler, ele simplesmente diz "imagem". e fim.
se você não consegue imaginar qual o problema de uma descrição vazia, imagine ir ao museu do Louvre vendado e só ouvir que "tem uns quadro aí". o que você consegue extrair de uma informação tão genérica? e mais: como você se sentiria sabendo que todo mundo ao seu redor está ali podendo aproveitar a experiência, conversar sobre, se divertir, enquanto você fica de lado, ignorado e impedido de participar da socialização?
se você conseguiu imaginar o cenário, eis que te apresento como é boa parte da internet para quem precisa de leitor de tela — a falta de acessibilidade isola e aliena centenas de milhares de pessoas daquele que, hoje, é um dos locais que mais deveria fornecer acesso democrático às informações.
uma parte de mim tem raiva de ter que escrever um texto tão didático como esse, mas outra sabe que a desimportância dada pelas pessoas ao assunto é o que, muitas vezes, impede que material explicativo chegue para mais gente, mesmo que existam muitas postagens e manuais a respeito de como criar acessibilidade para leitores de telas.
na época que eu frequentava o Instagram haviam contas só focadas em ensinar como descrever imagens, para aqueles que usavam o argumento de não saber como fazê-lo; no xitter me lembro de ter uma conta que o pessoal marcava em imagens sem descrição para que o responsável pela conta elaborasse uma descrição. enxergantes[1] amigos e conhecidos de quem usava leitor de tela geralmente também cuidavam de criar descrições quando percebiam a ausência delas, mas é complicado que esse sistema dependa de tão poucas pessoas. é virtualmente impossível que o equivalente a meia dúzia de cabeças faça um trabalho que deveria ser tanto individual como coletivo. usuários e empresas deveriam se importar genuinamente com o acesso, mas, assim como o Papai Noel não existe, parece que o interesse por criar um ambiente acessível só existe, em sua maioria, como performance ou moeda de troca, então não espero muito mais das pessoas com relação a esse tópico.
não acho que as pessoas sejam inerentemente ruins e por isso ignorem a necessidade de descrever imagens — mas acho que a maldade é superestimada como a razão pela qual a vida de muita gente é uma merda. se temos tanta gente que não faz o mínimo como parar 1 min pra descrever uma foto, não é por maldade e sim por indiferença individualista. o mesmo se aplica a tantas e tantas pessoas que criticam o movimento LGBTQIA+ por "querer direitos demais", que acham que cotas não fazem sentido e por aí vai — se não é um problema que me afeta, então pra quê fazer o mínimo de esforço para entender demandas e resoluções propostas? se não é meu rabo na reta e eu não estou incomodado, então que se foda.
por outro lado, aqueles que se "importam", mas não pesquisam o mínimo, estão por aí se alavancando usando pautas como se soubessem, de fato, do que estão falando. lembro que uns 5 ou 6 anos atrás, se não estou enganado, uma editora independente lançou uma antologia com uns 20 autores dando enfoque em deficiência. eu nem tinha sido diagnosticado como autista e, portanto, ainda me via como uma pessoa sem deficiência com um interesse em especial em estudar diversos tipos de deficiência, por isso fui ler. o material era uma porcaria.
focado especialmente em surdos e cegos, as histórias eram, na maioria das vezes, fetichistas ou pornôs de inspiração[2]. meu comentário mais leve a respeito de tal obra era que o conteúdo era medíocre, mal-editado e que, se houve algum trabalho por parte dos profissionais envolvidos na lapidação do texto, essas pessoas deveriam rever seu modo de trabalho, estudar mais — chamar a Libras de Linguagem Brasileira de Sinais[3]? pelo amor de deux, era só dar um Google na época, sabe?
enfim, menciono a tal antologia — cujo nome nem me recordo mais — pois me lembro de um leitor cego comentando que, logo de cara, se deparou com uma imagem não descrita ao tentar ler o ebook. a prática de colocar o cabeçalho de cada capítulo como uma imagem é bem comum quando se quer ter certeza que a fonte visualizada vai ser a selecionada mesmo pela diagramação ou se ela possui outros elementos como desenhos e símbolos, mas dar uma bola fora dessa de não descrever o cabeçalho de um livro cheio de personagem cego?! porra, é difícil não ficar puto nesse esquema das coisas.
todo esse texto começou porque eu precisava de algum lugar onde depositar a minha raiva, que ultimamente anda engatilhada porque estou no Bsky basicamente para acompanhar artistas de que gosto, mas um número sem fim deles não se incomoda em adicionar descrição nos desenhos. já falei diretamente com algumas dessas pessoas, mas o resultado é o mesmo que nada.
Minha resposta foi parar de compartilhar imagens sem descrição e, no máximo do máximo, se eu queria muito compartilhar, adicionar eu mesmo a descrição alt, mas a real é que meio que já bati meu limite. numa rede social onde o tempo inteiro tem alguém falando sobre adicionar descrições para tornar aquela merda mais acessível, as pessoas seguem comendo capim de sacanagem, se fazendo de sonsas ou até usando IA como desculpa![4] eu não aguento mais, pra mim já deu nessa porra.
hoje ativei uma conta que adiciona rótulos referente a isso no BlueSky, a Alt Text Labeler. esse bot permite que você oculte imagens sem descrição da sua timeline principal; ainda estou testando como ele opera, não sei se ainda recebe atualizações pois a última postagem foi de 2 meses atrás, mas uma parte da minha TL realmente sumiu depois que ativei a configuração. muitas imagens permanecem, mesmo sem descrição, pois pelo que vi aquelas que são ocultas é porque já passaram pelo crivo do bot anteriormente. isso resolve algum problema de acessibilidade? não, mas não estou tentando resolver nada e sim passar menos raiva com essa sonsidão toda, em especial de pessoas que muitas vezes também são PCD e de esquerda, que apoiam outras causas sociais, mas que não dão a mínima para críticas que deveriam tornar a web mais inclusiva.
eu sei lá, é foda.
Um "extra", só pra ninguém dizer "mas você num explica". se você está tentando ter um comportamento mais inclusivo na web, outras coisas que podem ser feitas para melhorar a navegação de usuários com leitor de tela e/ou com algum tipo de deficiência que dificulte a leitura/visão:
não censurar palavras de forma bizarra. exemplo censurando a palavra "assassino": ao invés de "4ss4ss1n0" (errado, impede o leitor de tela de produzir um resultado coerente), escreva "assa/sino" (a grafia dessa forma ainda vai produzir um resultado coerente no leitor). escrever dessa forma também ajuda a galera disléxica!
não repetir duzentas mil vezes o mesmo emoji ou letras. o leitor de tela lê cada uma das entradas, é um saco pra pessoa que está tentando ler a conversa.
se a ferramenta usada não permitir adição de alt text na sua imagem, coloque a descrição logo abaixo ou logo acima da imagem. já tive de fazer muito isso por conta de uma newsletter que tive no Behiiv. nesse caso você pode sinalizar que aquilo é uma descrição com o texto "descrição da imagem a seguir/anterior". uma coisa legal (e que eu mesmo morgava) também é informar o fim da descrição no final do texto — isso não precisa ser feito se você está usando o campo alt mesmo, pois o leitor de tela já dá essa informações sozinho.
evite usar fontes cheias de símbolos estranhos, pontos, frufrus etc. essa parte prejudica várias pessoas, seja alguém que usa leitor de tela ou não. Uma fonte toda desenhada pode até conseguir passar no leitor de tela, digamos, mas para pessoas de baixa visão ou disléxicos que não usam a ferramenta, o negócio só é um grande amontoado de formas difíceis de decifrar.
adicione opção de alto contraste no seu conteúdo. essa sugestão pode ser um pouco mais complicada se você usa um sistema próprio e sem muitas automatizações (uma coisa é fazer um tema responsivo no WordPress, outra é fazer no Bear Blog). antes de pagar o premium eu usava um tema escuro porque facilitava pro meu amigo com ceratocone[5] ler meus textos, o que era uma opção, mas resolvia só uma parte da demanda. indo pro premium, existe a possibilidade de usar javascript, então aproveitei para trocar meu tema e configurar uma versão escura, dando duas opções. ainda pretendo melhorar outras características do tema, ainda mais considerando a visualização em celulares, mas vou indo aos poucos porque não sou programador.
Enfim, descrevam suas imagens, porra. Paz.
Notas:
[1]: Pessoas que não possuem deficiência visual.
[2]: Termo usado para falar de histórias envolvendo personagens com deficiência em que o único propósito da PCD é motivar personagens sem deficiência ou mostrar como o sistema — geralmente neoliberal — funciona com meritocracia.
[3]: A Libras é chamada de Língua Brasileira de Sinais pois, assim como a Língua portuguesa, é uma expressão humana natural. Linguagem é o termo usado para construções artificiais, como a linguagem de programação, por exemplo.
[4]: Em uma discussão gringa já vi sendo usado o argumento de que a pessoa não descrevia suas imagens por medo de que isso auxiliasse IAs a serem treinadas nas suas artes. Cada cão que lamba sua caceta mesmo, viu.
[5]: O ceratocone é uma doença derivada do astigmatismo e que torna a visão da pessoa muito embaçada e distorcida. Geralmente o tratamento com óculos não é suficiente, tornando necessário o uso de lentes de contato ou até de cirurgia. Por razões pessoais, meu amigo dificilmente faz uso das lentes, então tento facilitar a leitura pra ele usando essa configuração de letra clara sobre fundo preto (orientação vinda dele mesmo).
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