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[comentário-análise] a dress to kill for (conto)

Pensei se valia a pena chamar esse texto de resenha, mas acho que, ao contrário do livro de Adalgisa Nery que mencionei recentemente, não tenho muito o que dizer sobre o conto A dress to kill for de Tessa Hastjarjanto. Se vendendo como uma história perfeita para quem gosta do filme “A Colina Escarlate” e do livro “O Retrato de Dorian Gray”, acaba sendo uma daquelas publicações atuais em que a autoria está mais preocupada em encontrar similitudes estéticas para vender sua história do que em necessariamente fazer um comparativo com sentido.

Abaixo, vou discorrer sobre o conteúdo da obra com spoilers.

A dress to kill for é um conto de umas 20 páginas, que apresenta a personagem Claire, uma mulher rica que deseja fazer parte do círculo social de uma duquesa e assim ganhar mais proeminência para sua família e negócios. Para isso, ela decide, precisa de um vestido que chame atenção. Claire vai até uma boutique de procedência duvidosa, onde encontra uma colega que também está indo buscar um vestido. O encontro acaba em sanguinolência quando Claire decide que vai tomar para si o vestido (o único disponível) e mata a colega para poder fazer isso. A costureira dona do negócio diz que ela pode mantê-la, pois pagou o preço de sangue e com isso Claire consegue adentrar o tal círculo da Duquesa, composto por outras mulheres que, assim como ela, também pagaram o mesmo preço por seus vestidos únicos.

Não é que a ideia seja ruim, na verdade, ela é bem interessante, até por todos os outros elementos que são apresentados de esguelha — Claire é uma mulher casada, mãe de 4 filhos, muletante e seu relacionamento com o marido parece conter doses interessantes de amor e toxicidade, o que sempre é bem-vindo nas ficções, pra mim, quando bem trabalhados. No entanto, nada disso é explorado, sendo apenas vagamente mencionado como background da personagem. Como um conto, a história não tem obrigação de explorar cada elemento citado, é verdade, mas me parece que houve um desperdício de potencial imenso entre a imagética presente aqui e o comparativo que podia ser feito.

Mesmo assim, não vou torar nas críticas ao conto — é só uma história ok, mediana, sem nada demais para pensar por trás. As descrições são ok, os diálogos foram interessantes, apesar de serem muito poucos. O “conto” funciona mais como uma introdução a um universo maior, o primeiro degrau de uma escada que pode levar a locais interessantes, mas que, por si só, não acrescenta em muita coisa. Acho que por isso mesmo o comparativo com Crimson Peak e Dorian Gray me deixa mais frustrado, ainda que racionalmente eu saiba que as autorias que fazem o famoso “para fãs de X e Y” estão mais focadas em dar um pitch tiktokiano para suas histórias do que em apontar nuances compartilhadas de fato.

Crimson Peak é uma obra de terror gótico que faz críticas sociais à condição feminina e traça um paralelo disso com a monstruosidade, o sentimento de “haunting” que pode vir tanto de seres sobrenaturais quanto de se sentir deslocado em sociedade. Nunca consegui ler mais do que 50 páginas de O Retrato de Dorian Gray — não por desgostar da escrita, é só que nunca estava na vibe certa para ler, eu acho —, mas não consegui ver muitas semelhanças entre ele e o conto, nem da escrita, nem das ideias trabalhadas, que acabaram sendo representadas de forma mais rala que sopa de água.

Minha situação com essa história com certeza é uma mistura de frustração com o que é versus com o que poderia ter sido.

O que é: uma história com escrita competente, mas genérica, que não desenvolve sua atmosfera ou psicologia da protagonista. Funcionaria melhor com uma obra de audiovisual, algo mais focado nas imagens do que no teor literário. O que poderia ser: uma crítica à burguesia frívola, mais preocupada em arranjar a roupa certa para um evento social do que em pagar adequadamente seus funcionários, uma análise da superficialidade das relações, de como para obter um espacinho na prateleira do status quo as pessoas são capazes até de matar aqueles que seriam (mais ou menos) importantes para si.

Talvez eu esteja esperando demais de um conto competente, mas esquecível, publicado sem grandes ambições na Amazon, mas acho que minhas expectativas não foram criadas sozinhas, afinal de contas, não fui eu quem escrevi o comparativo da sinopse.

Em parte é também por isso que me incomodam esses “uma mistura de A com Z”; dificilmente são descrições que de fato levam em consideração o teor das obras comparadas. Acabam sendo apenas comparações estéticas e superficiais, para leitores que estão mais interessados em Aesthetic e VibesTM do que em algo com um pouco mais de densidade.


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#pensando pensamentos #sobre ficção