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aquela vez em que tive que te exorcizar de mim…

aquela vez em que tive que te exorcizar de mim…

...você não lembra porque nem ficou sabendo, mas resolvi que da mesma forma que o exorcismo padrão não é algo de 1 dia só, eu talvez devesse ingerir essas doses homeopáticas de consciência a seu respeito.

Já escrevi muito sobre você, apesar de nunca ter feito algo como estou prestes a fazer: te contar — porque você nunca teve acesso a essa parte de mim — como me senti ao perceber que você era o babuíno nas minhas costas.

Torre Negra não é minha série literária favorita tem um tempo, mas julgo que a referência caiba aqui, então segue um pouco de contexto: no segundo livro, A Escolha dos Três, um dos protagonistas, Eddie Dean, descreve sua relação com a heroína com uma imagem que me marcou desde a primeira vez que a li, quando tinha 12 anos — um homem curvado sobre si mesmo, carregando um babuíno pesado na “cacunda”. Você não era meu vício, mas a sensação de peso e desgaste, a ideia de você abusando da minha energia ao me usar de veículo, sem que eu percebesse e muito menos consentisse, me parece se encaixar bem.

Outra imagem que me lembra você: uma pintura em que uma mulher está deitada na cama e aquilo que parece um demônio de pedra se senta bem em cima do peito dela. Já pensei em escrever histórias inspiradas nesse quadro pois minha mente fervilha de questionamentos que só uma poderia responder: a mulher sabe que o demônio está ali? Ela consegue respirar? Estamos vendo sua rotina noturna ou esse é o registro da sua morte?

No fim, ao invés de responder essas perguntas, eu só consigo pensar que é assim que me sinto quando não consigo escrever e sua voz me vem na cabeça com um famoso “escrever não é pra qualquer um”.

Acho tão estranho pensar em como uma amizade pode ser tão destrutiva, mas provável que seja só minha inexperiência com pessoas que não valem a sombra em que pisam. A ironia: vivi tanto tempo num lar abusivo e ainda assim não estava preparado para a forma como você foi abrindo caminho em mim feito uma lagarta-de-fogo secando uma árvore frutífera. Minhas folhas murcharam, meus galhos se tornaram quebradiços e, o pior, minhas raízes apodreceram — ou pelo menos assim julguei por anos.

Demorei a entender essa última parte, então me permita elucidar a parte antes dessa epifania: se um homem nunca pode se banhar duas vezes no mesmo rio e continuar sendo o mesmo, eu sinto que nas suas águas caudalosas eu não apenas deixei de ser o mesmo como quase troquei de estado, passando de semi-vivo para quase-morto nesse afogamento sutil.

Eu repasso nosso tempo juntos, onde você parecia tão grandiosa — e você era, pois eu e tantos outros nos juntávamos ao seu redor, depositando aos seus pés flores, livros, admiração e por vezes nossos próprios corpos. Hoje, eu percebo como você é pequena, rasa e estéril. Não vou te comparar com a aridez de um deserto porque mesmo esse ecossistema tem sua riqueza e vegetação, suas formas de vida rastejantes, andantes e voadoras. Não, você é a terra que foi suplantada por cal, para matar e secar os nutrientes, e depois recoberta por mais e mais camadas de cimento frio.

Você não é um cemitério pois mesmo em terra morta existe história e História, e mesmo uma ou outra erva daninha brota entre as lápides — você é a praça feita por mera burocracia, com sua arquitetura hostil de bancos que não permitem repouso e brinquedos de plástico sempre quentes demais para que as crianças consigam interagir. Você é a área de lazer descoberta onde o sol tosta a cabeça dos passantes, é o estacionamento desnecessário que destrói uma área verde, o prédio de vidro que não traz um alívio de sombra sequer apenas um brilho incômodo e seco, uma aura de forno pré-aquecido.

Eu poderia continuar essa lista, mas creio que a mensagem já tenha ficado clara da minha parte. Acho que os outros que foram alvos do seu arpão devem ter metáforas mais diretas, menos eufemísticas. Com certeza te chamariam de tudo, menos de santa: filha da puta, arrombada, escrota, sem criatividade, assistente de ChatGPT, autora de 1 livro só, mais medíocre e sem graça que uma camisa pólo cinza com a estampa “New York 1986”. Não julgo essas pessoas, até porque já estive no mesmo lugar que elas, várias e várias vezes. Sinto que o ódio é uma resposta coerente ao tanto de dor que você provocou, por quanto do terreno de sonhos e confiança você salgou com suas críticas debochadas e profecias de fracasso.

Eu definitivamente detestei você, mas esses sentimentos deixaram de ter valor e significado para mim. Por serem derivados de você, eles são como sua essência: ralos, salobros, bem parecidos em consistência com uma água turva e mal-cheirosa que quero deitar na primeira privada que encontrar.

Uma coisa que demorei a entender é que, mesmo que você tenha tido (e sido) um baita impacto na minha vida, isso diz mais a respeito de como eu enxergava você e não de como você de fato era. Eu te idolatrava porque genuinamente admirava você, mas isso tinha mais a ver com a minha percepção de você do que pelo que você fazia para “merecer” esse tratamento.

Talvez seja por isso que fico indo e voltando no labirinto da memória, revisando suas ironias e seus silêncios punitivos, tentando encontrar o corredor que vai me levar à resposta crucial de quando foi que aceitei de bom grado que você substituísse meu sangue pela sua bile corrosiva? Como o antígeno errado pode aguar o sangue, essa sua parcela em mim me matou um pouquinho mais um dia de cada vez, e eu não percebi pois estava distraído sendo eu mesmo detestável. Esse sempre foi o seu incentivo, de que todos os seus asseclas fossem pessoas odiosas e mesquinhas.

E aí, eu entendo. Aí, eu finalmente sou atingido pelo golpe da espada de Teseu, pois eu nunca fui o guerreiro com o fio, eu era Astérion esse tempo inteiro, com a diferença de que viajei até essa habitação confusa por livre e espontânea vontade; pois sim, fui eu quem comecei a transfusão, eu quem julguei uma boa ideia ser mais como você e menos como qualquer outra pessoa, especialmente eu mesmo.

Acho que você nunca vai saber quão deprimente é entender que você depositava o copo de veneno diante de mim, mas a escolha de tomar até a última gota sempre foi minha. Vai ver foi por isso que resolvi escrever esse texto; desse jeito posso me lembrar de que o único poder que você detém sobre mim é exatamente aquele que eu escolhi te dar, pois você nunca foi poderosa e magnânima a ponto de ser capaz de me controlar sozinha. Você é só um grande nada, um vazio, e eu que elaborei um verbete longo para dizer que era mais que isso, mas estou tentando parar.

Como se estivesse na terapia, ouvindo que as atitudes automáticas e nocivas podem ser substituídas por gestos conscientes e saudáveis, é isso o que vou dizer a cada vez que me deparar com sua voz no meu ombro, me desmerecendo sob seu disfarce de experiência e preocupação: por que você não vai fazer algo de útil e construtivo, para variar?

Vou te lembrar que se você estivesse mais ocupada indo atrás de novos livros para ler ou experimentando escrever histórias novas, ao invés de só reciclar enredos e tropos, talvez você não fosse tão infeliz que sentisse essa compulsão de semear tanto ódio no campo germinado daqueles que estão sendo artistas espontâneos.

Vou apontar gentilmente que ser mais imaginativa seria bom para a sua criatividade e que assim escrever seria bem menos sofrido, requerendo bem menos esforço desesperado de produzir um romance inteiro em poucos dias. Vou te alertar que, ao invés de ficar deitada depressivamente num colchão imundo, você poderia ouvir o que tantos ex-amigos te disseram e ir procurar ajuda para a sua saúde física e mental.

E vou te revelar que (por mais doido que pareça, olha só!) se você parar de cuspir ácido na cara dos outros, talvez as pessoas parem de ir embora e assim você não acabe virando uma versão pseudo-alternativa da sua mãe narcisista e abusiva que você tanto odeia, mas não o suficiente para perceber no espelho seu reflexo assumindo a mesma forma da dela.

E com isso, vou deixar essas palavras aqui e ir fazer o que você provavelmente não faz já tem um bom tempo, mas nem percebe: viver e ser feliz.


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#desabafo